16/05/2018

GLORIOSO MARTÍRIO DE S. MANÇOS (I parte)

Altar de S. Manços, bispo e mártir.
Durando o Império de Nero, e sendo seu Legado na Lusitânia Otho Silvio, Presidente da Cidade de Évora e sua Comarca um romano chamado Validio, sucedeu na mesma Cidade o martírio de S. Manços (...), natural de Romania em Itália (...). ... Começou a pregar na Cidade [de Évora] e converter muitas almas que não podendo resistir à força da verdade, e ao testemunho de milagres com que o Santo acreditava sua doutrina, confessavam a cegueira de sua vida passada, e pediam a regeneração do Santo Batismo. Destes, – diz Angelo Pacense em sua vida –, que tomou alguns Discípulos particulares, em quem conhecia mais fervor e sabedoria, e os mandou pregar, pelos lugares daquela Comarca, de maneira que em breve tempo se estendeu por toda a Província que hoje chamamos dentre o Tejo e Guadriana, a lei de JESUS Cristo, e foi tirada muita parte da grande jurisdição que o Demónio tinha nela mediante a Idolatria; mas ele que via arruinar seu Império, excitou o ânimo de alguns Sacerdotes dos ídolos, que perseguissem o Santo com tanta sede de seu sangue que conveio por então dar lugar ao ímpeto dos infieis e ausentar-se da Cidade, onde andou por diversas partes daquela Comarca, convertendo almas novamente, e confirmando na Fé aquelas que seus discípulos tinham convertido, de maneira que em poucos dias se converteu mais da metade da gente à Fé de Cristo, e os Idólatras temerosos de se acabar totalmente o culto de seus deuses, não cessando a pregação do Santo, o prenderam em certo lugar chamando então Castramanliana, e dali, a pé e carregado de ferros, e muito mais de opróbrios e maus tratamentos, o trouxeram à Cidade, onde estava por governador um Romano chamado Valídio, (…) o qual como estava antes informado dos Idólatras, e desejoso de executar sua ira no Santo, em o vendo diante de si, lhe mandou que desistindo da nova lei que pregava, sacrificasse aos deuses conservadores do Império [protectores daquele Império], ou se dispusesse à experiência dos castigos que mandaria fazer em sua pessoa. Ao que respondeu São Manços: "O segundo partido aceitarei, com melhor vontade por amor de meu Deus, a quem devo esta e muitas vidas [se as tivera], pelas que deu por mim e por comprar meu remédio: que quanto o primeiro de adorar os deuses do império proíbem a lei do Cristão que professo, e conhecimento de sua vaidade, que então foram mais insensível que as pedras, quando sendo homem racional adorara deuses de pedra: por onde, se os tormentos hão de ser testemunhas de minha constância, e a morte o prémio dela, aqui tens este corpo oferecido a tudo, e o ânimo tão firme em seu propósito, que todo o tempo que dispenderem em me tirar dele será mal gastado [para vós]." Responde Valídio: "Brandos te parecem os males antes da experiência deles, mas porque saibas a diferença que há entre falar e sofrer, eu te porei em estado que te convenha mudar propósito." Dito isto o mandou despir e atar a uma coluna (que ainda hoje se guarda na Cidade de Évora (...), e cerrado com grades de ferro (...), onde o açoutaram com tanta crueldade, que ficou seu corpo coberto de sangue, e feito todo uma chaga sem o Santo no meio desta aflição deixar de louvar a Cristo, e lhe dar graças pelo chegar a tempo que aceitasse seu sangue em sacrifício: dava-lhe pressa o tirano, a ele que adorasse os deuses, e aos Ministros de justiça, que avivassem os açoutes, crendo com esta  porfia derrubar sua constância, sem o Santo lhe dar resposta, mais que abominar a falsidade dos Ídolos, e engrandecer a Divindade de Cristo, certificando-o que em nenhum extremo lhe tiraria a Jesus Cristo do coração, nem lhe entraria nele a cegueira da Idolatria. Pelejou por muitas horas a pertinácia de Validio, com a constância do Santo, e ao fim cansou ele e os algozes de dar tormentos, sem o Varão Apostólico se cansar de os padecer: e com promessas de novos martírios o mandou na forma em que estava carregar de ferros, e lançar num cárcere mui escuro, onde lhe apodreceram as chagas e se cobriram de bichos, sem haver quem se compadecesse dele, ao menos para lhe lavar o sangue que ficara congelado dos açoutes.

(Ver continuação, II parte)

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