01/06/2017

O BOM COSTUME VEM DA VIRTUDE

[aviso: o Santo Zelo prefere usar a língua portuguesa de forma ágil, porque é um blog brasileiro, sem deixar de ser um blogue português. Por exemplo na palavra "ação" eu prefiro escrever "acção"; o "c" não se lê e serve apenas para abrir a sonoridade do "a" anterior, tal como falamos]
A reverência e o cumprimento
A civilidade cristã é virtuosa, não é de qualidade puramente humana; pois, praticada segundo o espírito de Cristo, e neste espírito conduzida, orienta-se à glória de Deus e verdadeiro proveito do próximo. As nossas acções exteriores, que são as únicas que podem ser regulamentadas pela cortesia, como disse S. João Batista de La Salle, devem ser a expressão da própria virtude.
A justiça na diferença
Segundo o desenvolvimento dos códigos da civilidade cristã, a caminhada gradual teve seu ponto mais elevado no século XVIII quando foi começada também a sua queda (conforme o poder nos reinos era ocupado pela agenda Liberal).
S. João de La Salle
É valorosa a civilidade, em reconhecimento e usufruto da nobreza da filiação divina obtida em Jesus Cristo Senhor Nosso, ao passo que a civilidade apenas humana assenta na vaidade e mero pragmatismo. Nestas considerações, devemos dar um valor elevado ao bom uso das nossas faculdades espirituais, e inclinar as nossas intenções e acções com um caráter não apenas temporário, mas principalmente eterno; e para a edificação do próximo. Assim, o código de civilidade foi evoluindo e respondendo ao crescimento da sociedade cristã, que teve o seu auge de complexificação no século XVIII, quando começa ao mesmo tempo a decair (como já referi).

Sem receios, podemos dizer que a verdadeira civilidade é a cristã.

04/05/2017

NOVELA: O ATEÍSMO EM PAUTA

"Nada cobre tanto de opróbrio a razão humana como o estondíssimo e abominável Materialismo. Talvez agradará mais palpar sua necedade ridícula em uma Novela:

Um navegante, depois de ter naufragado, foi lançado em terra numa grande Ilha povoada de grosseiros, e rudes habitantes, que nenhuma comunicação tinham com o resto do Continente. Antes de se encostar este desgraçado, para recobrar com o sono as forças perdidas pela vigília, e desfalecimento em que se achava, tirou da algibeira o relógio, deu-lhe corda, e o pôs junto a si. Mas surpreendido pelas feras no tempo em que dormia, foi por elas morto e conduzido às suas cavernas. Pela manhã os Ilhéus acharam por casualidade o relógio; e movidos da curiosidade de ver o que era que se movia dentro, tanto estudaram e trabalharam, que por fim conseguiram atinar com o segredo de abri-lo. Porém, que espectáculo tão maravilhoso a seus olhos! De repente foi ele o objecto de todos os discursos. Nenhum deles podia compreender como, ou por onde houvesse vindo ali, qual fosse seu uso, e muito menos quem houvesse sido o artista de uma maquina tão delicada e admirável. Todos admiraram a delicadeza, e finura de seu trabalho, a harmoniosa disposição de suas partes, a exacta, e ajustada correspondência das mesmas, a direcção universal encaminhada a produzir o movimento, e a caixa exterior feita com toda a previsão para o conservar. Porém, o que excedeu sobre tudo suas inteligências, foi a primeira força motriz, em quanto a mola esteve oculta a seus olhos. Nenhum duvidava, que quem fizera tal maquina era em sumo grau superior a eles em conhecimentos, e maquinismo. A nenhum lhe passou ao menos pela imaginação, ou que se houvesse ela produzido a si mesma, ou que fosse obra do acaso; e nenhum se fartava de admirar e celebrar o seu artífice. Sem embargo alguns sabiositos, que se tinham por mui superiores aos demais Ilhéus, começaram a contradizer a opinião geral, dizendo: que não se podendo dar a razão de como tivesse ali vindo a máquina, se podia afirmar muito bem que a terra a havia produzido. O mesmo foi ouvirem isto os outros, que começarem ás gargalhadas; e por modo de escárnio lhes começaram a perguntar: como acontecia, que a terra não produzia casas, chapéus, vestidos, e utensílios? Mas esta réplica capaz por si mesma de fazer entrar em juízo a qualquer, que ande em dois pés, foi justamente a que mais empenhou os tais doutores em acharem o modo, com que a terra houvesse produzido o relógio. Eis aqui como discorriam: “Os metais acham-se na terra: um fogo eléctrico ou vulcânico pode tê-lo fundido: a fermentação, que precisamente se haverá ocasionado, pode ter feito singulares combinações, e talvez poderá ter-lhe posto o ultimo perfil.”
Outros mais eruditos imaginavam, que muitos, e diversos metais se haviam derretido, e envolvido uns com outros, e que a simpatia deles, juntamente com a atracção, etc. etc. facílimamente, e como quem nada faz, teria traçado o plano, com que um metal com outro formassem diversas figuras de rodas dentadas, pêndulas, cadeias, etc. etc. E pelo que pertencia à igualdade perfeitíssima dos dentes, à finíssima proporção das partes, às figuras exactissimamente feitas umas pelas outras, e à evidente disposição de tudo a um fim maravilhoso, o atribuíam a um acaso, que, apesar de difícil, não tinha alguma impossibilidade. Porém o Povo, a quem é mui difícil (se não é impossível) fazer-lhes perder os estribos dos primeiros ditames da razão, se ria igualmente das explicações de uns, como das dos outros.
Se as ditosas dissertações sobre o relógio houvessem caído em nossas mãos, teriam escapado seu avinagrados autores de uma patente de loucos rematados?! Pois meus Senhores Materialistas, mutato nomine, de te fabula narratur. Por mais curiosamente, que esteja formado um relógio, não é comparável sequer com o corpo de um animal. O relógio não é produtivo, nem gera outros relógios, nem tão pouco tem alma, espírito, ou razão. Logo, todos vós, Senhores Filosofantes, fazeis dissertações muito mais absurdas, que as que faziam os Ilhéus. Portanto, se estes tinham mérito muito de sobejo para serem lidos por loucos, vós sem dúvida o tendes ainda maior. Oh Filosofia moderna! Quando terá luz, sequer ao menos para saberem envergonhar-te de ti mesma?! ...)
Porém que loucura ou absurdo, por mais disparado que seja, não abraça a Filosofia, com tanto que possa fazer-nos delirar?!
Porém a Filosofia se tem feito célebre na Física à força de delírios, e ninharias, não é menos delirante na Metafísica. Seus princípios e axiomas principais correspondem a pedir de boca a seu predilecto prurito de delirar em tudo, e por tudo. Para fazer uma Matemática delirante não se necessitava de mais, que pôr um de seus princípios fundamentais, que um ângulo recto é, ou pode ser menos que um ângulo agudo, e eis-aqui transtornada toda a Matemática, feito o todo menor que a sua parte, e esta maior que o seu todo, e falsificado quanto até aqui era verdade evidente, e vice-versa. Em os antigos tempos, em que a razão era o essencial constitutivo do homem, sobre ela se fundavam, e dela fluíam seus direitos, e seus deveres. Mas a Filosofia achou pouco pasto em um principio tão singelo, e tão evidente, para a sua mania de delirar sobre a liberdade, a igualdade, a independência, a sociedade, e os governos, etc. etc.; foi então, que substituindo àquele principio a potência física da natureza animalesca, e formando dela a base dos direitos do homem, não conheceu desde então limites em forjar delírios, que afagassem as paixões. A moderna Metafisica, pois, veio a parar em um caos de direitos contraditórios, quais são: Soberana escravidão, independência dependente, e arrazoamentos absurdos. No entanto delira-se, e delira-se deliciosamente. O que mais abusa da razão, é o mais qualificado de racional; e esta verdade austera, e a sabedoria profunda são olhadas, e tratadas com desprezo, e desdém. O que há ainda mais para admirar, é, que este deleitável delírio não só tem apoderado do cérebros das frágeis damas, dos estonteados petímetres, e dos anciãos deslembrados, e patetas; mas até por uma espécie de encantamento tem feito em todas as cabeças o mesmo transtorno, que os livros de cavalarias fizeram na de D. Quixote. No meio de seus mais sólidos raciocínios entravam como indubitáveis verdades seus caprichos, seus encantadores, e seus cavaleiros andantes. E qual é hoje o literato, que não há enchido suas obras de inundações, épocas, vulcões, aluviões, e terremotos? Qual, o que, como verdura em horta, não nos haja espalhado nelas os direitos do homem, a liberdade, a igualdade, a soberania, a ilustração, e toda a demais sorte de tonteiras? Quem nos diria, que havia chegar tempo, em que fôra vergonhoso não delirar?! Pois isto é o que actualmente está sucedendo. Desditoso o que marcha sobre os verdadeiros princípios da razão, da verdade, e da experiência: não é necessário mais, para ser apontado com o dedo como um supersticioso, e metido à bulha como um ignorantão, e um imbecil.
Porém, valha-nos Deus; para que fim tanto empenho em inventar disparates? Tanto deleite se acha no delírio, que cheguemos a enojar-nos com a verdade, e com a razão?! Quando a um sabiosito da moda se lhe enchem de repente os cascos de ideias romanescas, e extravagantes, e se lhe vai de todo o juízo, é tido logo por um louco perfeito. E então só a Filosofia há de delirar à sua vontade, não só sem quebra, mas com honra e aplauso?! Com que só ela há de fazer alarde de toleima e loucura; e a verdade, a razão, e a justiça hão de estar como escravas atadas ao carro de seu triunfo?! Apostemos nós que há aqui oculto algum fito, ou alvo, muito mais agradável, que o deleite de agradar?!
Muitos, sim, muitos disparatam de boa fé, por orgulho, por presunção, por ligeireza de miolos, e porque são loucos e estonteados à nativitate. Porém entre os principais, e pela maior parte, o seu delírio é filho de um refinada malícia, e de um plano infernal de corromper à força de disparates o entendimento do homem, e dispô-lo desta quiza, a que arroje de si a Moral e a Religião. Estes pérfidos sonhadores, são os que descaradamente se chamam: FILÓSOFOS, LIBERAIS-MAÇÕES, ESPÍRITOS-FORTES, DESPREOCUPADOS, ILUSTRADOS, etc. [...]"
(Vocabulário Filosófico-Democrático indispensável para todos aqueles que desejem entender a nova língua Revolucionária. Lisboa, ano de 1831, N.º3)

16/04/2017

VOTOS DE BOA PÁSCOA (2017)

Nosso Senhor entregou-se para ser flagelado e crucificado, não porque não tinha poderio superior para livrar-se dos embutes que lhe armaram, mas para a redimir e ensinar-nos o caminho. Ressuscitou como disse! Aleluia, Aleluia, Aleluia!

Deste dia podemos fazer também grande menção ao Juízo Particular, e ao Juízo Final (Universal) que ocorrerá um dia. É com temor unida à uma alegria espiritual que os bons cristãos esperam e desejam a que com mais coragem participar destes grandes mistérios.

E neste ano de 2017, desejo uma santa e feliz Páscoa aos leitores, e aos que por bem apareçam pelo blog ✠ SANTO ZELO.

Rafaela.

04/04/2017

HISTÓRIA DOS MILAGRES DO ROSÁRIO (VI)


(continuação da V parte)

Autores que se alegam nesta história.

Porque para autoridade da história importa muito conhecer os Autores que escreveram, e as letras, e vida que tiveram, porque sendo de Santos, e Religiosos, se presume que não se apartavam da verdade, nos pareceu dar aqui notícia dos que nesta alegamos.

O primeiro é Cesario de Hestorbais, do Arcebispado de Colónia, Religioso de S. Bento, homem muito devoto, e versado nas Divinas Escrituras, e muito devoto. Entre outras muitas obras que escreveu em Diálogo doze livros, a imitação de São Gregório Papa, das visões, e milagres de seu tempo, polo ano de mil e duzentos e vinte e dois, como se colige do livro décimo cap. 48. e no prólogo afirma com juramento, que nenhuma coisa fingiu de quantas escreveu, e se alguma escrever, que não for conforme ao que passou, diz, que se deve atribuir aos que lha contáram, e isto mesmo podemos nós afirmar de tudo o que contarmos nesta história. 

Guillelmo Barbantino, é tido por Autor do mui nomeado livro das abelhas, que todo trata também de milagres, e exemplos. Foi da Religião de S. Domingos, homem muito devoto, e de grande virtude, do qual diz Frei Fernando de Castilho, na primeira parte da história de S. Domingos, livro segundo, capítulo sessenta e nove, que à infância de Santo Tomás trasladou de Grego em Latim todos os livros e Aristóteles, e entre outras obras que nos deixou, foi este livro Apum. E o mesmo diz o doutor João Herolt, chamado, Discípulo, alegando seus exemplos, debaixo de nome Guillelmo Brabantino, como se pode ver no Prontuário, litera L exemplo 44, página 4. e página 18. exemplo 30. e página 51. letra H. exemplo primeiro, ainda que outros por ser tão antigo lhe quiseram dar outro nome, como foi, Dionísio Cartusiano, que no Tratado que fez De particulari iudicio, no fim do artículo décimo diz, que o Autor deste livro é o que escreveu a vida de Santa Cristina de Leodi, que é o Cardeal Jacobo de Vitriaco, como dissemos no livro do Rosário, e o livro é tão excelente, que bem merece que se cuide que o fez tão grave Autor, como é um Cardeal, e de sua lição se entende, que foi Religioso da Ordem dos Pregadores.

O Mestre Frei João do monte, segundo se acha nos Autores do Rosário, foi companheiro de São Domingos, e como testemunha de vista escreveu muitos destes milagres, que em seu tempo aconteceram, e sendo companheiro de tão verdadeiro Prégador como foi o Padre São Domingos, não havia de escrever o que não visse, ou tivesse por muito certo.

Frei Alano de Rupe, foi também Religioso da Ordem de São Domingos, e homem muito douto, e espiritual, e particular devoto da Virgem, ao qual se entende, que algumas vezes ela o favoreceu com sua presença, e escrevendo seus milagres, teria por um grande pecado escrever coisa dela que não fosse verdade. Viveu este Autor pelo tempo que a Confraria do Santo Rosário se começou a renovar. Floresceu em tempo de Federico terceiro. Morreu no ano de 1464 como dizem alguns autores.

Frei Tomás do Templo, escreveu também milagres do Rosário: foi segundo, dizem alguns Autores, companheiro do Padre São Domingos, que também sem dúvida se deve cuidar  do que o seja na verdade de sua história.
Frei Alberto Castelhano de Veneza.
Frei Gianeto de Salo.
Frei Francisco Mexia.
Frei Jerónimo Vaz.
Frei Nicolau Dias.

Todos estes foram também Prégadores, e Religiosos da Ordem da São Domingos, que escreveram milagres que acharam antigos, e outros de seu tempo.

Frei Henrique Gran. Alemão, da Ordem de São Domingos, homem de grande zelo na conservação das almas, escreveu o livro que se intitula, Speculum exemplorum, ajuntando muitos de diversos, e graves Autores, e outros casos que aconteceram em seus tempos, que foi no ano de 1419. Alguns a que não contenta senão o que seu juízo aprova, o acusam de que não teve muita eleição nos exemplos que escreveu: mas estes mesmos notam a São Gregório, e ao Santo Beda, da mesma falta os quais assim como se enganáram no juízo que deixam dos Santos, se pode dizer, que também se enganariam no que deixam deste Autor, e como não sinalem exemplo particular que reprovem, não temos que nos deter em sua defensão, senão aproveitarmos do bom que escreveu, que é tudo.

Pelberto de Themesuar, Doutor, e Lente da sagrada Escritura, e mui nomeado Prégador da Ordem do Seráfico Padre São Francisco, escreveu quatro tomos de sermões, um deles intitula, Pomerium sermonum de Beata Virgine, o qual semeou todo de mui cheirosas rosas de exemplos de nossa Senhora, alegando ordinariamente seus Autores, e entre eles o Sto. Anselmo no livro dos milagres, que até agora não tem chegado por cá. Deste Autor diz Frei Francisco Penigarola, nomeado Prégador de nossos tempos em Itália, num Tratado que fez do modo de prégar, página trinta e sete, que para ter matéria de prégar basta a Summa de S. Tomás, ou Rosário de Pelberto, que tudo diz, e com muita claridade, foi impresso no ano de 1521. Sempre fala doutamente, e muito a propósito para a salvação das almas: e no livro de nossa Senhora se mostra mui particular devoto seu, e zeloso de que todo o mundo o seja.

O Doutor João Herolt da Ordem de São Domingos, que por humildade se chamou, Discípulo, natural de Alemanha, homem mui douto, e Apostólico Prégador, escreveu sermões do tempo da Quaresma, e de Santos, e um Prontuário de exemplos de todas as matérias, e outro particular de milagres de nossa Senhora.

Neste Autor se vê um grande zelo de aproveitar as almas com suas prégações, movido a deixar os pecados, e seguir a virtude, e fazer devotos de nossa Senhora de modo que não perde como dizem tino, nem palavra que não seja encaminhada a este fim: e depois de o ler todo, me parece que ele só basta para um Prégador que quiser ser Apostólico. Foi impresso em Veneza no ano de 1598.

Cartas anuais de nossa Companhia [de Jesus], é um livro, no qual andam sumadas as cartas que segundo o que se costuma em nossa Religião, se escrevem as coisas de edificação, que aconteceram em diversas partes, onde os nossos andam.

Tudo o que nelas se escreve é com grande consideração, e boa eleição aprovado por pessoas graves, e doutas. Este livro tem a mesma autoridade, que a de um historiador grave, douto, e Religioso, e que escreveu o que lhe relatáram pessoas de fé, e que afirma que foram testemunhas de vista no que contam, escritas ao modo que São Gregório, Palladio, Sofrónio, e Cesario escreveram os seus diálogos, pondo neles os exemplos que aconteceram em seu tempo, e que pessoas dignas de fé lhe contaram. E como este acontecem outros semelhantes, e não haja Gregórios, nem Jerônimos que os escrevam, é bem que não se percam, nem esqueçam, e que os creiamos como cremos as histórias de outros, que tratam de matérias profanas, nas quais soe mais perigar a verdade.

(continuação, VII parte)

29/03/2017

HISTÓRIA DOS MILAGRES DO ROSÁRIO (III)

(continuação da II parte)

Em que tempo a Santíssima mãe de Deus começou a fazer milagres no mundo.

Quando Deus criou o mar, diz a divina Escritura, que as águas andavam sobre a terra, e que depois as ajuntou em um lugar a que chamou mar, que é uma profundidade, e abismo, que quase não tem fundo. Assim havemos de entender que todas as graças gratis datas, que andam derramadas por todos os Santos, e Anjos, ajuntou Deus na Virgem Maria. E porque entre estas há duas, que são fazer milagres, e dar saúde, S. Damasceno a chama mar, e abismo de milagres. Abyssus miraculorum. E André, Cresente a chama obradora de milagres, com poder que se não pode perder. Esta excelência confirmam todos os milagres, que em todos os tempos por sua intercessão Deus fez, mas quando hajam começado, agora o declararemos.

Que antes da Encarnação do filho de Deus, a Virgem fizesse milagres, nem as histórias o escrevem, nem se acha razão para o afirmar, nem naquele tempo parece acomodado para se fazerem, pois não eram necessários para confirmação da doutrina, nem manifestação de sua santidade, como disse S. Tomás, e o mesmo se pode dizer do tempo que correu desde a Encarnação, até à Ascensão de Cristo. E se porventura fez alguns, não os sabemos, mas depois da Ascensão de Cristo, até sua morte, enquanto vivia em carne mortal, mui verossímil é que fizesse muitos, e mui grandes, porque ainda que ela não tinha ofício de pregar, como os Apóstolos, e não os fizesse para confirmação de sua doutrina, todavia eram para grande bem e acrescentamento da Igreja, e para ser conhecida por Mãe de Deus, e desta opinião é Alberto Magno, e S. Antonino, e Ruperto: e Pelbarto diz que S. Hermano, e outros santos afirmam, que vivendo fez muitos milagres, curando muitos enfermos, e deitando demónios, e ressuscitando três mortos, e que a três presos que levavam a padecer chamando por ela, se quebraram as prisões, e os que queriam prender ficáram cegos: e entre todos estes se deve contar por mui principal o que a Rainha dos Anjos fez sendo trazida por eles à cidade de Saragoça, onde mandou ao Apóstolo Santiago, que nela se fizesse uma Igreja que ainda hoje se chama do Pilar em que ela, apareceu.

O outro tempo que é da gloriosa Assunção, todo está cheio de milagres, porque assim como em todos os quatro tempos do ano, Deus manda Sol orvalho, e chuva para fertilizar a terra, assim em todos os tempos Deus manda à terra contínuos milagres obrados por intercessão de N. Senhora, para com eles se encher a Igreja de bens temporais, e espirituais. Quando começaram os que ela quis obrar por virtude do Rosário, os autores que deles escreveram o dizem, e no discurso desta história o veremos, que foi o tempo em que o Padre S. Domingos renovou esta santíssima devoção, como já na primeira parte dissemos. Mas quanto crédito se lhes deva dar, agora o declaremos.

(continuação, parte IV)