
No ano de 1507 se achavam os Portugueses em Cananor, dominando uma nobre Fortaleza, que ali havia edificado com licença do Rei daquela terra. Sucedeu-lhe outro no Reino, o qual, ou ressentido de alguns agravos, que recebera, ou zeloso da sua jurisdição, veios sitiar com poderosos Exército de vinte mil combatentes, que depois desceram a cinquenta mil, a dita Fortaleza: Era Governador dela Lourenço de Brito, Fidalgo ilustre por sangue, e por valor; durou o sítio quatro meses, rebatendo os defensores contínuos, e fortíssimos assaltos de dia, e de noite; mas sendo tão excessivo este aperto, ainda era maior o que padeciam por falta de viveres: chegaram a estado, que cada gota de água lhe custava muitas de sangue, e vieram a faltar-lhe todos os mantimentos, mas não a constância; então foi, quando experimentaram a singular maravilha, que em outro lugar referimos [a 15 de Agosto], até que neste dia lhe deram os infieis ao mesmo tempo. por mar e terra, dois furiosos assaltos, e com tão obstinada porfia, que durou o conflicto, desde a madrugada até noite. Com ela lhe entrou o último desengano, de que era invencível o valor dos Portugueses, e logo lhe pediram paz, a qual lhe foi concedida, com as condições, que costumam pôr os vencedores, e que não podem negar os vencidos.
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