04/04/2017

HISTÓRIA DOS MILAGRES DO ROSÁRIO (VI)


(continuação da V parte)

Autores que se alegam nesta história.

Porque para autoridade da história importa muito conhecer os Autores que escreveram, e as letras, e vida que tiveram, porque sendo de Santos, e Religiosos, se presume que não se apartavam da verdade, nos pareceu dar aqui notícia dos que nesta alegamos.

O primeiro é Cesario de Hestorbais, do Arcebispado de Colónia, Religioso de S. Bento, homem muito devoto, e versado nas Divinas Escrituras, e muito devoto. Entre outras muitas obras que escreveu em Diálogo doze livros, a imitação de São Gregório Papa, das visões, e milagres de seu tempo, polo ano de mil e duzentos e vinte e dois, como se colige do livro décimo cap. 48. e no prólogo afirma com juramento, que nenhuma coisa fingiu de quantas escreveu, e se alguma escrever, que não for conforme ao que passou, diz, que se deve atribuir aos que lha contáram, e isto mesmo podemos nós afirmar de tudo o que contarmos nesta história. 

Guillelmo Barbantino, é tido por Autor do mui nomeado livro das abelhas, que todo trata também de milagres, e exemplos. Foi da Religião de S. Domingos, homem muito devoto, e de grande virtude, do qual diz Frei Fernando de Castilho, na primeira parte da história de S. Domingos, livro segundo, capítulo sessenta e nove, que à infância de Santo Tomás trasladou de Grego em Latim todos os livros e Aristóteles, e entre outras obras que nos deixou, foi este livro Apum. E o mesmo diz o doutor João Herolt, chamado, Discípulo, alegando seus exemplos, debaixo de nome Guillelmo Brabantino, como se pode ver no Prontuário, litera L exemplo 44, página 4. e página 18. exemplo 30. e página 51. letra H. exemplo primeiro, ainda que outros por ser tão antigo lhe quiseram dar outro nome, como foi, Dionísio Cartusiano, que no Tratado que fez De particulari iudicio, no fim do artículo décimo diz, que o Autor deste livro é o que escreveu a vida de Santa Cristina de Leodi, que é o Cardeal Jacobo de Vitriaco, como dissemos no livro do Rosário, e o livro é tão excelente, que bem merece que se cuide que o fez tão grave Autor, como é um Cardeal, e de sua lição se entende, que foi Religioso da Ordem dos Pregadores.

O Mestre Frei João do monte, segundo se acha nos Autores do Rosário, foi companheiro de São Domingos, e como testemunha de vista escreveu muitos destes milagres, que em seu tempo aconteceram, e sendo companheiro de tão verdadeiro Prégador como foi o Padre São Domingos, não havia de escrever o que não visse, ou tivesse por muito certo.

Frei Alano de Rupe, foi também Religioso da Ordem de São Domingos, e homem muito douto, e espiritual, e particular devoto da Virgem, ao qual se entende, que algumas vezes ela o favoreceu com sua presença, e escrevendo seus milagres, teria por um grande pecado escrever coisa dela que não fosse verdade. Viveu este Autor pelo tempo que a Confraria do Santo Rosário se começou a renovar. Floresceu em tempo de Federico terceiro. Morreu no ano de 1464 como dizem alguns autores.

Frei Tomás do Templo, escreveu também milagres do Rosário: foi segundo, dizem alguns Autores, companheiro do Padre São Domingos, que também sem dúvida se deve cuidar  do que o seja na verdade de sua história.
Frei Alberto Castelhano de Veneza.
Frei Gianeto de Salo.
Frei Francisco Mexia.
Frei Jerónimo Vaz.
Frei Nicolau Dias.

Todos estes foram também Prégadores, e Religiosos da Ordem da São Domingos, que escreveram milagres que acharam antigos, e outros de seu tempo.

Frei Henrique Gran. Alemão, da Ordem de São Domingos, homem de grande zelo na conservação das almas, escreveu o livro que se intitula, Speculum exemplorum, ajuntando muitos de diversos, e graves Autores, e outros casos que aconteceram em seus tempos, que foi no ano de 1419. Alguns a que não contenta senão o que seu juízo aprova, o acusam de que não teve muita eleição nos exemplos que escreveu: mas estes mesmos notam a São Gregório, e ao Santo Beda, da mesma falta os quais assim como se enganáram no juízo que deixam dos Santos, se pode dizer, que também se enganariam no que deixam deste Autor, e como não sinalem exemplo particular que reprovem, não temos que nos deter em sua defensão, senão aproveitarmos do bom que escreveu, que é tudo.

Pelberto de Themesuar, Doutor, e Lente da sagrada Escritura, e mui nomeado Prégador da Ordem do Seráfico Padre São Francisco, escreveu quatro tomos de sermões, um deles intitula, Pomerium sermonum de Beata Virgine, o qual semeou todo de mui cheirosas rosas de exemplos de nossa Senhora, alegando ordinariamente seus Autores, e entre eles o Sto. Anselmo no livro dos milagres, que até agora não tem chegado por cá. Deste Autor diz Frei Francisco Penigarola, nomeado Prégador de nossos tempos em Itália, num Tratado que fez do modo de prégar, página trinta e sete, que para ter matéria de prégar basta a Summa de S. Tomás, ou Rosário de Pelberto, que tudo diz, e com muita claridade, foi impresso no ano de 1521. Sempre fala doutamente, e muito a propósito para a salvação das almas: e no livro de nossa Senhora se mostra mui particular devoto seu, e zeloso de que todo o mundo o seja.

O Doutor João Herolt da Ordem de São Domingos, que por humildade se chamou, Discípulo, natural de Alemanha, homem mui douto, e Apostólico Prégador, escreveu sermões do tempo da Quaresma, e de Santos, e um Prontuário de exemplos de todas as matérias, e outro particular de milagres de nossa Senhora.

Neste Autor se vê um grande zelo de aproveitar as almas com suas prégações, movido a deixar os pecados, e seguir a virtude, e fazer devotos de nossa Senhora de modo que não perde como dizem tino, nem palavra que não seja encaminhada a este fim: e depois de o ler todo, me parece que ele só basta para um Prégador que quiser ser Apostólico. Foi impresso em Veneza no ano de 1598.

Cartas anuais de nossa Companhia [de Jesus], é um livro, no qual andam sumadas as cartas que segundo o que se costuma em nossa Religião, se escrevem as coisas de edificação, que aconteceram em diversas partes, onde os nossos andam.

Tudo o que nelas se escreve é com grande consideração, e boa eleição aprovado por pessoas graves, e doutas. Este livro tem a mesma autoridade, que a de um historiador grave, douto, e Religioso, e que escreveu o que lhe relatáram pessoas de fé, e que afirma que foram testemunhas de vista no que contam, escritas ao modo que São Gregório, Palladio, Sofrónio, e Cesario escreveram os seus diálogos, pondo neles os exemplos que aconteceram em seu tempo, e que pessoas dignas de fé lhe contaram. E como este acontecem outros semelhantes, e não haja Gregórios, nem Jerônimos que os escrevam, é bem que não se percam, nem esqueçam, e que os creiamos como cremos as histórias de outros, que tratam de matérias profanas, nas quais soe mais perigar a verdade.

(continuação, VII parte)

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