09/02/2019

D. PAIO PERES CORREA (10 de Fevereiro)

DOM Paio Peres Correa, Português, de quem já dissemos a nove de Janeiro, nasceu de nobilíssimo sangue na Cidade de Évora, seus pais se chamavam Pero Pires Correa, e Dona Dordea Pires de Aguilar. Foi Mestre da Ordem de San-Tiago em toda Hespanha, Capitão excelente, e grande, sem controvérsia, entre os maiores. Foi igualmente famoso em vitórias, e conquistas. Redimiu muitas Praças em Portugal, e Castela do jugo dos Mouros. No cerco, e expugnação de Sevilha, obrou proezas dignas de imortal nome. Na batalha de Lerena, vendo, que entrava a noite a favor dos infiéis, que começavam a ser vencidos, implorou, e conseguiu do Céu, que se dilatasse o dia, quanto bastou a rompê-los inteiramente. Na mesma ocasião, padecendo os seus grande falta de água, batendo com a lança em um penhasco, remediou copiosamente aquela falta; renovando, na primeira acção, a memória de Josué; a de Moisés, na segunda. Era Hespanha pequena Esfera ao seu valor, passou a Constantinopla em socorro de Balduíno, e mereceu com acções gloriosas os aplausos Imperiais, os favores Pontifícios. Voltando a Portugal faleceu neste dia [10 de Fevereiro], ano de 1275 em santa velhice, coroado, não menos de virtudes heroicas, que de gloriosos triunfos. Na Sé de Évora se faz neste dia um aniversário por sua alma.

08/02/2019

D. MARIA DE GUADALUPE, E CARDENAS (9 de Fevereiro)

Dona Maria de Guadalupe Lancastro e Cardenas, filha dos Duques de Aveiro, e Torres Noves, Dom Jorge de Lencastro, e Dona Maria de Cardenas, Duquesa de Maqueda; nasceu em Portugal a onze de Janeiro de 1630. No Reinado de ElRei Dom João IV passou à Côrte de Madrid, onde casou com o Duque de Arcos, e se distinguiu, e brilhou muito com os dotes especiosos da sua formosura, e discrição; e muito mais com as preciosas luzes das grandes virtudes espirituais, e morais com que se adornava. Teve bom conhecimento das línguas Latina, Italiana, Francesa, Inglesa, e muita agudeza, graça, e prontidão em ditos, e respostas. 
Na viva guerra, que naquele tempo havia entre Portugal, e Castela, a convidaram para ver uma Comédia, onde se fez um Entremoz Castelhano, em que tratavam mal de palavras, e obras a um Português. Uma das senhoras Castelhanas voltando-se para a nossa Portuguesa, com alegria lhe disse: "Mire Vossa Excelência, como se tratam acá los Portugueses", e a nossa Duquesa lhe respondeu com semblante grave: "Lo que hacen aqui los Españoles a los Portugueses, es burlas; pelo lo que hacen los Portugueses a los Espanholes en la campaña de Alentejo, es deveras". 
Foi naturalmente discreta, varonil, liberal, pia, e muito esmoler. Pelos livros da sua Contadoria se liquidou, que em vinte anos distribuiu com esmolas, e obras pias um milhão, e quinhentos, e trinta e seis mil, setecentos, e trinta, e noventa reais; não entrando nesta conta quarenta mil ducados, que deu para a Missão de África, que não permitiu, que fossem lançados em despesa, porque os satisfez das suas joias. Em seus Estados propagou a devoção do Rosário, que se cantava pelas ruas, e mandava perdões, e estandartes com muitas grosas de contas para os Curas repartirem pelos meninos; e estabeleceu renda para anualmente se distribuir pelos pobres da Vila de Torrijos do Estado de Maqueda, fazendo também imprimir muitos livrinhos da Doutrina Cristã, que se repartiam em semelhantes dias pelos meninos, com o sustento aos pobres, ara de melhor vontade acudirem aos divinos louvores. Os ornamentos preciosos, e mais ornatos dos Altares de todas as Igrejas dos seus Estados, e de outras da sua devoção, corriam por conta da sua despesa, e dos trabalho, e merecimento das suas mãos, e criadas. Aumentou mais quatro Curas às Igrejas de Alpujarras do seu padroado, e estado, consignando-lhes rendas, e pediu ao Arcebispo de Granada a confirmação, deixando a seus sucessores libre o encargo de elegerem os Curas, dando-se os lugares a concurso, e oposição, para que as ovelhas tivessem mais, e melhores pastores. Foi devotíssima da Rainha dos Anjos com o título de Guadalupe, e mandou, em sinal da sua escravidão, gravar em seus braços a imagem da Senhora. Debaixo dos pés desta milagrosa imagem, que é um dos maiores Santuário de Hespanha, mandou colocar uma carta de perpétua escravidão da própria letra, e sangue, em seu nome, e de seus filhos Dom João Duque de Arcos, e de Maqueda; Dom Gabriel Duque de Banhos, e aos presente Duque de Aveiro; e Dona Isabel Duquesa de Alvas. Todos os anos rendia a vassalagem da sua escravidão, mandando à Igreja de Guadalupe quatro peregrinos, que vestia, e preparava de todo o necessário para o caminho, com uma especial esmola para oferecerem em seu nome, e de seus filhos, no dia da Natividade da Senhora; e deixou renda para o mesmo dia, em todos os anos,  um dos Monges  do Mosteiro daquele Santuário oferecer, e pagar o mesmo feudo. 
Antes de morrer fundou renda para os Missionário da China, Japão, e Malavar; e sempre foi na Côrte de Madrid, bem-feitora de todos os Missionários, e procuradora dos requerimentos, e despachos das Missões. No testamento com que faleceu, deixou uma herdade no termo de Lisboa para sustento dos Missionários, que passavam ao Oriente. Deixou cinquenta pesos todos os anos sobre as casas em que vivera, para sustentar-se no Império da China um Missionário da Companhia de JESUS; declarando por última vontade, que passaria o Estado de Maqueda a esta Religião para administrar as rendas em benefício das Missões da Índia. Também deixou ao Hospital de Elche um moinho de três pedras para sustento dos pobres da Vila. Fez uma doação para rodas as Quintas-feiras, e outras festas do ano, se acenderem cinco tochas de cera na Igreja do Sacramento da Vila de Torrijos; e renda separada para limpeza da Capela, e do Altar, de Ornamentos, Corporais, e toalhas. Consignou a renda de um juro de setecentos, cinquenta mil maravedis para reparos, e ornamentos das Igrejas do Estado de Maquela, declarando, que todo o seu rendimento aplicara em utilidade, e serviço das Igrejas. Com estas, e outras muitas excelentes obras, e virtudes; com os Sacramentos da Igreja; com repetidos, e fervorosos actos de Fé, Esperança, e Caridade, faleceu preciosamente num Sábado neste dia [9 de Fevereiro] do ano de 1715 na Côrte de Madrid, com oitenta e cinco anos de idade. Jaz sepultada na Capela Mór do Mosteiro de Guadalupe, aos pés da milagrosa imagem da Senhora.

07/02/2019

Fr. EGÍDIO DA APRESENTAÇÃO (8 de Fevereiro)


Frei Egídio da Apresentação, Eremita de Santo Agostinho, Lente de Prima de Teologia jubilado na Universidade de Coimbra: um da Imaculada Conceição da Mãe de Deus; outro sobre os oitos livros da Física de Aristóteles; e cheio de virtudes, e merecimentos, faleceu neste dia [8 de fevereiro], de oitenta e sete anos, no 1626. 

06/02/2019

S. FIEL, Bispo e Confessor (7 de Fevereiro)

Em Mérida, passou neste dia [7 de Fevereiro], ano de 570 ao logro da coroa imortal, São Fiel, Arcebispo daquela antiga Metrópole da Lusitânia. Abraçou, e seguiu os ditames mais altos da perfeição, e soube desempenhar, por modo singularíssimo, as obrigações do seu nome: Foi servo, a toda a luz, fiel, e prudente; Fiel, no amor para com Deus: Prudente, no governo do seu rebanho. 

05/02/2019

NASCE O PADRE ANTÓNIO VIEIRA (6 de Fevereiro)


No mesmo dia [6 de Fevereiro], ano de 1608 nasceu em Lisboa o Padre António Vieira da companhia de JESUS. Foi batizado na Freguesia da Sé, na mesma pia, onde o foi Santo António, cuja língua, e espírito soube imitar na eloquência, agudeza, e fervor, com que expôs a palavra Divina, sendo, sem controvérsia, no seu tempo, (e o será nos futuros) a glórias dos Púlpitos, a luz, e Mestre dos Prégadores. Dele tratamos em outro dia largamente [a 18 de Julho]. 

04/02/2019

O Beato Fr. GONÇALO DE GARCIA, Mártir (5 de Fevereiro)

O Beato  Frei Gonçalo Garcia, nascido em Baçaim, cidade no Estado da Índia, sujeita à Coroa de Portugal, filho de pai Português, e de mãe natural da terra: Tomou o hábito de Leigo na Religião dos Menores: Padeceu martírio neste dia [5 de Fevereiro], ano de 1597 sendo crucificado em Japão na Cidade de Nagazaqui com vinte, e cinco companheiros, aos quais o sumo Pontífice Urbano VIII declarou verdadeiros Mártires em Bula expedida a 14 de Setembro de 1627.
Memorial aos Vinte e Seis Mártires, no mesmo local do martírio, em Nishiozaka Park - Japão (西坂公園).

03/02/2019

DESAFIO ENTRE FERAS (4 de Fevereiro)

No mesmo dia [4 de Fevereiro], ano de 1517 quis ElRei Dom Manoel experimentar o que se afirmava da antipatia, que tinham entre si o Elefante, e o Rinoceronte, e do modo, e fereza, com que se combatiam; e, como tivesse ambas estas feras em Lisboa, as mandou lançar num pátio grande em Lisboa, as mandou lançar em um pátio grande de Palácio, cercado de paredes altas. É o Rinoceronte na corpulência quase igual ao Elefante, posto que parece menor, por ter as pernas muito mais curtas; a natureza o vestiu de conchas, como de tartaruga, que lhe servem de rodelas, em defensa das principais partes do corpo; tem uma ponta na testa, de palmo e meio de comprido, e de uma palmo de roda muito aguda, e dura como aço. Postas, pois, em campo estas duas feras, se viu, que o Rinoceronte, mostrando uma resolução destemida, caminhava para o Elefante, assoprando pelas vestas com tanta força, que fazia levantar o pó, como se fora um grande pé de vento, o Elefante, dando também grande urros, se pôs em acção de pelejar; mas como era de pouca idade, temeu o combate, e investindo com uma janela, de grades de ferro, meteu a cabeça com tanta força, que cobrou dois varões, e saiu por entre eles, sendo a abertura tão pequena, que apenas cabia por ela um homem. Mas o temor da morte, e a indústria da natureza, lhe deram jeito para poder sair por tão pequeno lugar. Ficou o Rinoceronte mui senhor de si, e do campo, mostrando nos meneios que fazia, o gosto de se ver temido. ElRei Dom Manoel o mandou, neste mesmo ano, ao Papa Leão X com outro presente de peças, e joias de grande valor (não desigual ao que lhe havia mandado três anos antes) mas perdeu-se a Nau na costa de Génova, com tudo o que nela ia, e saindo o corpo do Rinoceronte à praia, lhe tiraram a pele, e foi levada ao Papa, que a recebeu, e viu, e toda Roma, com grande admiração, e espanto, como cousa nunca vista até então em Itália.

02/02/2019

ESCOLÁSTICA DE SÃO BENTO (3 de Fevereiro)


Neste dia, ano de 1734 faleceu na Vila de Constância, em idade de cento e trinta e seis anos, cinco meses, e dezessete dias, Escolástica de São Bento, natural da Vila de Santarém, onde foi batizada na Freguesia de Santa Iria, filha de Francisco Fernandes, e de Inês Dias. Casou cinco vezes, e faleceu viúva sem descendentes; porque todos os que teve, a precederam na morte; e ainda nesta idade continuava em ir ouvir Missa sem bordão, nem companhia alguma. 

01/02/2019

CASA ElRei D. JOÃO I com a Rainha DONA FILIPA. (2 de Fevereiro)

No mesmo dia [2 de Fevereiro], ano de 1387 se celebraram na Cidade do Porto as felizes bodas entre ElRei D. João I de Portugal, e a Rainha Dona Filipa, sendo ElRei de vinte e nove anos, e a Rainha, de vinte e oito. Saiu ElRei em um formoso cavalo branco, vestido de rica tela, e a Rainha, em um bizarro palafrém da mesma cor, também ricamente vestida, e ambos com Coroas de ouro esmaltadas de pedras preciosas. O Arcebispo de Braga e do Porto os recebeu na Catedral, e lhe deu as bênçãos: Concorreu toda a Nobreza deste Reino, e muita de Inglaterra, que acompanhava ao Duque de Lencastro pai da Rainha. Houve um Real, e esplêndido banquete, em que entraram todos os Prelados, e Cavaleiros de uma, e outra nação; O Condestável Dom Nuno Álvares serviu de Mestre-sala, tão dentro em ordenar os assentos na mesa, como na companha os esquadrões. Por muitos dias se continuaram na mesma Cidade, e por todas as partes do Reino, luzidas festas de justas, e torneios, e outras demonstrações de alegria. ElRei fez logo casa à Rainha, e nomeou seu Mordomo mór ao Mestre de Cristo Dom Lopo de Sousa: Copeiro mór Gonçalo Vasquez Coutinho: Reposteiro mór Fernão Lopes de Abreu; E nomeou outros muitos Cavaleiros, e senhoras da primeira nobreza para seu serviço, e logo lhe encomendou a regência do Reino, em quanto durasse a ausência, que fazia, acompanhando a Castela o Duque seu pai, nas pertenções, que este teve à sucessão daquela Coroa.

31/01/2019

Sta. BRIZIDA Virgem (1 de Fevereiro)


SANTA Brizida Virgem: Graves Autores dizem, que foi natural de Lisboa, filha de um nobre Hibernio, que então assistia nesta famosa Cidade. Voltando seu pai à Pátria, levou a Santa menina consigo, já Santa: Porque desde os primeiros crepúsculos da razão se entregou aos mais altos exercícios da virtude. Por sua rara beleza, solicitaram muitos o seu casamentos; mas a castíssima Virgem pediu, e mereceu, alcançar de Deus, por suas orações, que a fizesse feia; sacrifício raro em condição mulheril; entrou em Religião, e prosseguiu até a morte obrando tão virtuosas, e tão excelentes acções, que bem mostrava ser um singular prodígio da mão de Deus. Foi seu glorioso trânsito neste dia [1 de Fevereiro], em Terça-feira, ano de 518. A sua cabeça se venera na Igreja do Lumiar, por distante de Lisboa, para onde foi trazida por modo milagroso, e é venerada dos Fiéis pelas contínuas mercês, que, por sua intercessão recebem da benignidade de Deus.

ANO HISTÓRICO - de FEVEREIRO

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ANNO HISTORICO,
DIARIO PORTUGUEZ


Índice de
FEVEREIRO

Dias:

- 1 - I, II, III, IV, V, VI, VII.
- 2 - I, II, III, IV, V, VI, VII, VIII, IX.
- 3 - I, II, III, IV, V, VI, VII.
- 4 - I, II, III, IV, V, VI.
- 5 - I, II, III, IV, V, VI, VII, VIII.
- 6 - I, II, III, IV, V, VI, VII, VIII, IX, X.
- 7 - I, II, III, IV, V, VI.
- 8 - I, II, III, IV, V, VI, VII, VIII, IX.
- 9 - I, II, III, IV, V, VI.
- 10 - I, II, III, IV.
- 11 - I, II, III, IV, V, VI.
- 12 - I, II, III, IV, V, VI, VII.
- 13 - I, II, III, IV, V, VI, VII, VIII.
- 14 - I, II, III, IV, V, VI, VII.
- 15 - I, II, III, IV, V, VI.
- 16 - I, II, III, IV, V, VI, VII.
- 17 - I, II, III, IV.
- 18 - I, II, III, IV, V, VI, VII, VIII, IX.
- 19 - I, II, III, IV, V, VI, VII, VIII, IX.
- 20 - I, II, III, IV, V, VI, VII, VIII.
- 21 - III, III, IV, V, VI.
- 22 - I, II, III, IV, V, VI.
- 23 - I, II, III, IV, V, VI, VII, VIII.
- 24 - I, II, III, IV, V, VI, VII.
- 25 - I, II, III, IV, V, VI, VII.
- 26 - I, II, III, IV, V, VI, VII.
- 27 - I, II, III, IV, V, VI, VII.
- 28 - I, II, III, IV, V, VI, VII, VIII.

PROTESTO

"Em observância dos Decretos Apostólicos, em nome do Autor, e meu, declaro, que as pessoas, que viveram, e morreram com fama de santidade, e os milagres, e sucessos, que excederem as forças humanas, e se referem neste livro, sem estarem aprovadas pela Santa Sé Apostólica; não têm mais autoridade, ou certeza, que a que dão os Autores, que primeiro as escreveram; e em tudo me sujeito às determinações da S. I. R. - Lourenço Justiniano da Anunciação."

30/01/2019

O Venerável MARTINHO, Prior de Soure (31 de Janeiro)


NESTE dia [31 de Janeiro], passou a melhor vida, cheio de trabalhos, e merecimentos, o Servo de Deus Martinho, Prior, ou Vigário de Soure. Viveu os primeiros anos entre religiosos exemplos, no Convento de Santa Cruz de Coimbra, onde aprendeu altas lições da perfeição Evangélica. Feito Sacerdote, se aplicou a reedificar a Igreja, e Vila de Soure, pouco dantes destruídas pelos Mouros; nesta obra padeceu excessivo trabalho, acudindo ao mesmo tempo a apascentar as suas ovelhas com fervorosa caridade. Em uma entrada dos Mouros, foi cativo, e levado a Santarém, depois a Évora, depois a Sevilha, e ultimamente a Córdova. Era sem dúvida disposição superior, que lhe variassem os lugares do seu cativeiros, para que os Cristãos, cativos neles, tivessem na sua pessoa, e companhia doutrina, e consolação. A todos confortava na Fé, a todos servia, a todos animava, sendo universal bem-feitor de todos. Nestes gloriosos empregos do amor de Deus, e do próximo, o achou a morte, e por ela, livre do cárcere do corpo, e do cativeiro, voou sua ditosa alma a lograr a felicidade, que não tem fim.