19/07/2019

O Venerável GREGÓRIO LOPES (20 de Julho)

 O admirável, e o prodigioso servo de Deus Gregório Lopes, Português, natural da nobre Vila de Linhares, peregrino da sua Pátria na idade de dezasseis anos, e depois por trinta e três solitário habitador do novo mundo em um retiro de todo o comércio com ele: contemplativo altíssimo, e tão superior aos afectos da natureza, que no meio de intoleráveis dores, nunca se lhe ouviu um "ai". De espírito tão profundo, e recôndito, que o mesmo demónio não podia conjeturar suas operações. Tão perfeito, que por toda sua vida, nem disse palavra escusada, nem nas suas acções se lhe advertiu imperfeição alguma. De tão rara pureza de consciência, que comungava frequentemente, sem receber o Sacramento da Confissão, porque aquela o não acusava de haver cometido acto algum pecaminoso com advertência. De tão rara união com Deus, que por três anos contínuos, a cada respiração dizia interiormente: Fiat voluntas tua; e depois passou a acto contínuo de amor do mesmo Senhor, sem interrupção, ainda quando delineava mapas, por ser muito inclinado a Matemáticas. De gravidade tão admirável, que a todos infundia respeito. De atractivo tão singular, que até os Índios mais bárbaros os entranhavelmente o amavam. Tão ilustrado, que lhe infundiu Deus todas as ciências naturais, e sobrenaturais, com que expôs soberanamente o Apocalipse: sabia toda a Bíblia de memória penetrando os maiores segredos dela, com pasmo dos homens mais eruditos; enfim, um dos maiores prodígios da Divina Graça. Viveu, e morreu com verdadeira opinião de santidade, na solidão de Santa Fé, das léguas da Cidade de México, neste dia [20 de Julho], ano de 1596 com cinquenta e quatro de idade. 

17/07/2019

O Pe. ANTÓNIO VIEIRA (18 de Julho)


Neste dia [18 de Julho], pela uma hora depois da meia-noite, no ano de 1697 contando noventa de idade, faleceu na Bahia o Padre António Vieira, da Companhia de Jesus, Prégador dos Reis Dom João IV, Dom Afonso VI, Dom Pedro II e sem controvérsia Rei dos Prégadores. Foi Varão digno de memória imortal. Insignemente grande em ciências, e notícias. Assim resplandecia em todas, como se houvera sido Mestre em cada uma. Na arte concionatória, foi sem contradição o Juiz, ou (para que o digamos com mais alta comparação, e mais própria) o Fenix. Seguiu este felicíssimo engenho na estructura dos seus Sermões uma nova ideia, um novo método. Alguns o rastejaram antes: muitos o quiseram imitar depois, mas uns, e outros com aquela diferença, que vai da luz das Estrelas aos resplandores do Sol. Os maiores homens, os mais insignes lhe abaixam a cabeça, e com o dedo na boca lhe rendem a primazia. Se há algum, que diga, ou presuma o contrário, nem é insigne, nem é grande, nem é homem. Não negamos a eminência de muitos Oradores dos nossos tempos (posto, que a negue  a inveja, ou a ignorância) mas estes, tanto excederam aos mais, quanto mais se chegaram a beber das águas desta fonte, a participar dos raios desta luz.

Nos seus Sermões, assim tira os assuntos das entranhas do Evangelho, que vem nascendo dele, e delas, assim os define, os reparte, os veste; assim os funda, os prova, os confirma; assim os exorta, os ilustra, os realça; com tão subidos conceitos, com pensamentos tão novos, tão esquisitos, com reflexões tão agudas, e tão sólidas, com documentos tão altos, com erudição tão vasta, e tão selecta, com frase tão natural, e tão pura,  com tanto asseio sem artifício, tanta gala sem afectação, com tanta vivacidade de engenho, tanta profundidade de juízo, com tanto peso de razões, tão ajustado nas premissas, tão formal nas consequências, tão douto, tão elevado, tão elegante, tão sublime, que deixa absorta, e suspensa a mesma admiração, e transcendem todo o elogia.

Nos pontos mais dificultosos da Teologia especulativa, Moral, Dogmática, e Ascética, usa de termos tão claros, e tão próprios, de exemplos tão naturais, de comparações tão adequadas, e bem trazidas, que se deixa entender facilmente, ainda dos entendimentos mais rudes, ou menos cultivados. Pelo mesmo modo discorre em qualquer das outras ciências, quando chega a tratar delas. Até nas artes mais humildes, e nos empregos mais alheios da sua profissão, fala com tanta propriedade, e miudeza, como se os professara. Nos da guerra, como se fora soldado, nos do mar como se fora piloto, nos do campo, como se fora lavrador, e até nos do jogo (não se pode encarecer mais) como se fora taful.

Na inteligência, e exposição das Escrituras é um prodígio singular: assim ajusta os textos aos seus discursos, que parecem trazidos, ou achados com lume superior. Por onde os outros passaram sem advertência, ali descobre as dúvidas mais agudas, e mais selectas, e as resolve, e desata com tanta proporção ao seu intento, como se só para ele fora feito o texto, e o reparo. Nos ditames da política se remontou com superiores voos; o amor da Pátria, o crédito da nação o constrangeram por vezes a falar em público sobre as novidades do seu tempo, que foram as maiores, que em muitos séculos se viram em Portugal. As mesmas o obrigaram a exortar, e advertir, e, talvez, repreender ao povo, à Nobreza, e até às mesmas Majestades; o que fez com estilo excelso, e sublime, e com tanta valentia, como prudência. Disse as verdades sem temor, mas com tento: soube unir a liberdade com a madureza, a doutrina com a doçura. Nos Sermões panegíricos, abstraindo de exagerações vãs, e de comparações pueris, louva os Santos, engrandece os mistérios com discretísimas ideias, sólidas, bizarras, engenhosas, e a toda a luz admiráveis, e plausíveis. Nos Sermões Doutrinais é um fortíssimo propugnador das virtudes, expugnador dos vícios, valendo-se de argumentos, e consequência tão fortes, e tão suaves, que bastam a vencer, e convencer a obstinação mais cega, a cegueira mais obstinada. E, para que o siga de uma vez, com os seus sermões assim enriquece a memória, assim lisonjeia o entendimento, assim renda a vontade, assim se insinua ao coração, que justamente é, e merece ser tido por um dos maiores milagres do engenho, e agudeza, que já mais viu o Mundo.

Ainda assim houve naqueles tempo quem prégava melhor, que o Padre António Vieira; mas era o mesmo Padre em diferentes Sermões; em qualquer dos seus excedia aos outros Prégadores, em alguns se excedeu a si mesmo. As cinco Pedras de David são cinco riquíssimos Diamantes, com que se coroa no templo da fama o simulacro da agudeza. Os dois sermões da Profissão, e das Exéquias são duas colunas do mesmo templo, gravado nelas o antigo Non plus ultra. No Sermão do Evangelista se remontou como Águia. Aos quatros Juízos do Advento nada chega. O Sermão da Quinquagésima é o o Sermão dos Sermões, e assim outros. Mas que maior prova da excelência deles, que as estimações de todo o Orbe Católico! Foram elas tantas, e tais, que não sabemos, que alguém nos nossos tempo as lograsse iguais, nem semelhantes. Por maiores, que fosse o Templo em que prégava o Padre Vieira, já nele ao romper da manhã não havia quem pudesse romper com gente; concorria toda a Nobreza de um, e outro sexo, concorriam os sujeitos mais graves de todas as sagradas Religiões [ordens religiosas], concorria o mais selecto, e mais luzido do Povo. Ouviam-se as suas vozes com igual silêncio, e admiração de todos: até a mesma inveja emudecia. Na cabeça do Mundo logrou os maiores aplausos. Todos os Cardeais, Prelados, e homens insignes, que seguiam a Côrte Romana o ouviam, como a Oráculo da eloquência. A Sereníssima senhora Cristina Alexandra, Rainha de Suécia, o tratou com singularíssimas expressões de Real afecto, reputando por grande glória ouvir da sua Capela (como ouviu por muitas vezes) um tão afamado Orador; às Nações, e Províncias da Cristandade, aonde não chegou em pessoa, chegou a sua fama, e deu nelas um tão estrondoso brado, que todas procuravam com ambiciosa emulação os seus escritos, e os verteu cada uma no seu próprio idioma. No Português, temos as suas obras reduzidas hoje a quinze tomos. Deseja-se com universal expectação o Clavis Prophetarum. Que ele confessa fora o maior desvelo dos seus estudos. O que é argumento evidente de ser aquela obra um parto incomparavelmente prodigioso, uma joia de preço inestimável.

Este homem tão grande, tão insigne, tão venerado por suas letras, e sabedoria, ainda se fez, e foi maior homem pelo desengano, com que metendo debaixo dos pés as estimações (verdadeiramente vaidades) do Mundo, da Côrte se retirou dela, e dele para o Maranhão, trocando os Palácios, em que eram admitido pelas choças de colmo: a graça, e valia com os Reis, e primeiros Senhores de Portugal, pelo trato com homens despidos, ferozes, e quase brutos: o descanso, e delícias, que puderam lograr, se quisera, por infinitos trabalhos, e perigos: os cargos, e dignidades, que lhe foram oferecidas, por grandes perseguições, e desprezos, a que se sacrificou, e padeceu, sem outro fim, ou interesse mais que o de salvar almas daquela numerosa, e inculta gentilidade. Vários acidentes (que não são do nosso assunto) o trouxeram a Portugal, e o levaram a Roma, donde voltando outra vez a Portugal, se retirou finalmente par ao Brasil, fazendo, como novo Sol, um perfeito círculo tão luzido como dilatado.

16/07/2019

O Pe. Fr. JOÃO DA SILVEIRA, Carmelita (17 de Julho)

Resultado de imagem para ordem do carmoNeste mesmo dia [17 de Julho], em uma Quinta-feira, ano de 1687 com mais de noventa e seis de idade, morreu no Convento de nossa senhora do Carmo de Lisboa, o insigne Padre Fr. João da Silveira, ilustríssimo ornamento da Religião Carmelitana, da Nação Portuguesa, do Orbe religioso, e literário. Foi natural da mesma Cidade, filho de Fernão Lopes Lisboa, e de sua mulher Catarina Fernandes. Depois de ler muitos anos Teologia, escreveu, e imprimiu dez tomos; seis de Exposição dos quatro Evangelhos, dois sobre o Apocalipse; um dos Actos dos Apóstolos; outro de vários opúsculos. Todos são doutos, e tão estimados na Europa Católica, que em todas as suas principais oficinas tem sido impressos muitas vezes. Também se imprimiram dois Sermões seus, um de Exéquias do Príncipe Dom Teodósio, outro da Canonização de Santa Maria Madalena de Pazi. Deixou M. S. um tomo da Encarnação, outro de Leis, outro de Filosofia, e um Tratado da Imunidade Eclesiástica. Não vinha a Lisboa pessoa de especial nota, ou de dentro, ou de fora do Reino, que logo não fosse ao Carmo, ver a um homem tão sábio, e egrégio como o Padre Silveira. Não o foi menos no exercício das virtudes. Não ofendeu a da Castidade em toda a sua vida. Na humildade foi raro; não quis ser Prelado; só por obediência aos seus Padres Gerais aceitou ser Presidente de três Capítulos Provinciais; e no Geral, que em Roma se celebrou no ano de 1660 o condecoraram com os privilégios de Padre da Província, e fizeram Definidor perpétuo da Ordem. Na pobreza foi tão singular, que tendo mil cruzados de renda cada ano, que lhe deixou sua irmã a Baronesa Dona Beatriz da Silveira, de quem já falamos em outra parte [5 de Fevereiro]; e recebendo grandes productos dos seus livros, tudo empregou em obras Santas, e sagradas do seu Convento, e se tratava como verdadeiro pobre, não tendo outras alfaias mais, que uma Cruz de pau, uma banca, uma cama, e duas cadeiras velhas. Ainda assim alguns furtos lhe fizeram da sua cela, quais foram levarem-lhe algumas vezes (pessoas graves que o visitavam) o tinteiro, e as penas, com que escrevia, como joias preciosas, dignas de imortal memória. Na sua sepultura se lê o seguinte epitáfio:

Siste Lector.
Hic Jacet
Carmeli doctissimus Doctor, 
Sapiens, & humilis,
Pauper, sed magnanimus.
PATER SYLVEIRA.
Libris incubens, Deo impensius
Studuit, scripsit, composuit:
Nil habens Litteris preciosius
praeter virtutem.
Nobis exempla, Lisiae decorem,
Famam aeternitati relinquens, 
Sictus vixerat, mortuus est
In osculo Domini:
Ne discedas, quin dicas
Requiescat in Pace.
Obiit 17. Julii, Anno 1687.

15/07/2019

O VENERÁVEL ARCEBISPO D. Fr. BARTOLOMEU DOS MÁRTIRES (16 de Julho)

Dom Frei Bartolomeu dos Mártires, foi natural de Lisboa, Religioso da Sagrada Ordem dos Prégadores, e um dos mais excelentes Varões, que ela teve desde os seus primeiros fundamentos: foi insignemente Grande, assim na Compreensão das ciências, como no exercício das virtudes; apesar de extraordinárias diligências, que fez, por não sair do sossego da sua cela, o nomeou a Rainha Dona Catarina (Regente, então, do Reino) Arcebispo de Braga, e naquela excelsa Dignidade, deu tão ilustres provas de zelo, de vigilância, de beneficiência, e de amor, e caridade Pastoral, que renovou os heroicos exemplos, e nobilíssimas acções dos primitivos Padres da Igreja; contente com o preciso trato, e sustento para si, e para um curto número de Capelães, e criados, tudo o mais das suas rendas era dos pobres. Visitou por vezes o Arcebispado, não para tosquiar as suas ovelhas, mas para lhe dar o pasto espiritual da doutrina, e também o material, remediando com grossas esmolas, aos que achava necessitados: chegou a partes, onde nunca havia chegado outro algum Arcebispo, porque se dilatavam muito mais, que os longes das terras, os espaços da sua caridade. Gostava de prégar, e ensinar, e ministrar os Sacramentos aos pobrinhos do campo, humilde com os humildes; mas desses Prelados que Deus, pois não escolheu para fundamento da sua Igreja as altas qualidades, senão as humildades profundas. Foi ao Concílio Tridentino, e fez a jornada sem vãs ostentações, que só servem à vaidade, em detrimento da pobreza: onde havia Convento da sua Religião [Ordem Dominicana], nele ia pousar, com um companheiro do seu hábito, deixando a hostiária os poucos criados, que o acompanhavam, e sucederam-lhe alguns casos galantes, porque talvez dava com Prelados, que não gostavam de hóspedes, ou eram menos cuidadores do trato deles, donde nascia levar algumas más respostas, e piores ceias; mas essas mesmas desatenções, e desprezos à sua pessoa, era o seu prato mais regalado: se depois o conheciam, e lhe pediam perdão (como sucedeu muitas vezes) então os abraçava com terníssimas demonstrações de afecto, e instava, em que não havia de admitir singularidades, declarando com muitas veras, que só se alegrava, e dava por bem agasalhado, quando o tratavam como a qualquer Frade particular da sua Ordem. No Concílio foi logo conhecida, e admirada a sua pessoa, e ouvido como trombeta do Céu, porque facilmente se divisava nele um desejo ardentíssimo do bem comum da Igreja, sem atenção alguma a respeitos particulares: quando lançava o seu voto, todos o escutavam com profundo silêncio, e já sabiam, que havia de votar sem carne, e sangue. Tratando-se do modo, que era bem se reformassem as partes do corpo místico da Igreja, se ia passando  em claro o sagrado Colégio dos Cardeais, como se nenhuma relaxação pudesse subir tão alto; mas ele, com semblante inteiro, e severo, e com os olhos, e coração em Deus, e no bem comum da Cristandade, e na reputação do mesmo Concílio, disse: Os Reverendíssimos, e Ilustríssimos Cardeais (não tinham até então maior tratamento)  hão mister uma reverendíssima, e ilustríssima reforma. Assim votava geralmente em todas as matérias; passou a Roma, e recebeu grandes honras do Sumo Pontífice Pio IV e o mesmo Pontífice conferia com ele as dependências públicas, e gravíssimas, que ocorreram por aqueeles tempos: deu-lhe por muitas vezes a sua Mesa, e lhe fez outros singularíssimos favores. Voltando a Portugal, teve uma boa ocasião de mostrar o quanto zelava as preeminências da sua Primazia, porque com a Cruz Primacial arvorada atravessou por toda Hespanha, e pela mesma Cidade de Toledo, e Côrte de Madrid. Restituído à sua Igreja tratou de praticar nela as disposições do Concílio, e a esse fim convocou Sínodo, e nele estabeleceu santíssimas leis, e arrancou antigos abusos, emendando, e castigando vícios, mas sempre com mais suavidade, que rigor; erigiu o nobre Seminário de Braga, e um Colégio para a Religião da Companhia na mesma Cidade, e um Convento na Vila de Viana para a sua Religião, no qual se recolheu pouco depois, renunciando a Dignidade, cansado já de tantas fadigas, e querendo viver também para si algum tempo: ali, como se entrara a ser Noviço, começou a seguir a vida comum, e a exercitar-se nos empregos mais humildes da Ordem, quanto os achaques, e os anos lhe davam lugar: não perdeu o costume inveterado de dar esmolas, e vez houve, em que chegou a dar a própria cama, ficando dormindo por algum tempo nas tábuas: viveu neste seu Convento oito anos, e tantos teve de preparação próxima para a morte, sucedida  santíssimamente neste dia [16 de Julho], ano de 1590. Com setenta e seis de idade: Jaz no mesmo Convento de Viana com gerais aclamações de Santo. 

13/07/2019

SUPRIME-SE O CABIDO DA IGREJA CATEDRAL DE LISBOA, E SE ERIGE NOVA FORMA DE SERVIÇO NA MESMA IGREJA (14 de Julho)


O Santíssimo Padre Benedicto XIV por uma Bula, que principia: Ea, quae Providentiae nostre, &c dada em Roma neste dia [14 de Julho], ano de 1741 suprimiu o antigo Cabido, Dignidades, Canonicatos, Quartanarias, e Capelanias da antiga Igreja Catedral de Santa Maria de Lisboa, dando faculdade ao Cardeal Patriarca de Lisboa para erigir com conselho, e consentimento delRei, vinte e oito Cónegos, vinte Beneficiados, e dezoito Clérigos Beneficiados, tudo do Padroado Real; e de poder dispor o modo do serviço, e governo da dita Igreja, como parecesse ao mesmo Patriarca com o conselho delRei; e assim se executou pontualmente. 

12/07/2019

JOÃO TAVEIRA DE LIMA (13 de Julho)


João Taveira de Lima, Cavaleiro da Ordem de Cristo, havendo começado a servir na Cavalaria na guerra da feliz aclamação, continuou sempre o serviço, depois de sete anos de soldado, nos postos de Alferes, Ajudante, Capitão, Ajudante de Tenente, Coronel, e Governador da Praça de Monçam na Província do Minho, com patente, e soldo inteiro de Brigadeiro. Faleceu na mesma Praça neste dia [13 de Julho], ano de 1738 em idade de cento e oito anos, três  meses, e dois dias, havendo nascido em 11 de Abril do ano de 1630. Foi sepultado na Igreja da Misericórdia da mesma Vila, onde tinha prevenido o seu jazigo. 

11/07/2019

Sta. MARCIANA, UMA DAS NOVE IRMÃS (12 de Julho)


Santa Marciana, uma das nove irmãs Bracaenses, foi martirizada em Toledo, e sendo a última das nove, que deu a  avida em obséquio da Fé, não foi a última na glória de merecer, e conseguir, pela tolerância de esquisitos tormentos, a coroa luzidíssima de Mártir, e pelo incontaminado da pureza, a palma sempre frondeza de Virgem. 

10/07/2019

S. BENTO, S. JOÃO, e Sto. UDON (11 de Julho)


São Bento, Saõ João, e Santo Udon, foram Portugueses, viveram retirados do mundo, nas margens do rio Lima, em sítios naquele tempo de grande aspereza, e solidão; floresciam pelos anos de 800 e desde então os veneram os Fieis, e como a Santos lhe levantaram várias Ermidas na Província de Entre Douro e Minho, onde celebram neste dia [11 de Julho] com públicos cultos a sua memória. 

09/07/2019

CHEGA A LISBOA A NOVA DO DESCOBRIMENTO DA ÍNDIA ORIENTAL (10 de Julho)


No mesmo dia [10 de Julho], ano de 1499 entrou pelo Rio de Lisboa a nau de Nicolau Coelho, um dos três Capitães, que foram ao descobrimento da Índia, havendo dois anos, e dois dias, que haviam levado âncora do mesmo Rio. Vasco da Gama se deteve na Ilha terceira, por assistir a seu irmão Paulo da Gama, que vinha mortalmente enfermo, e ficou sepultado na mesma Ilha; foi grande o alvoroço, e alegria de toda a Côrte, e Reino, com a chegada de Nicolau Coelho, e depois muito mais com a de Vasco da Gama, como diremos em seu lugar. 

07/07/2019

PARTE VASCO DA GAMA AO DESCOBRIMENTO DA ÍNDIA (8 de Julho)

Neste dia [8 de Julho] em Sábado, ano de 1497 partiu Vasco da Gama da barra de Lisboa a descobrir, por mares nunca de antes navegados, a remotíssima região do Oriente; empresa, que os homeens mais Sábios reputavam impossível; mas vence a impossíveis um coração valeroso, e destemido! Com três navios, de que eram Capitães o mesmo Vasco da Gama, e seu irmão Paulo da Gama, e Nicolau Coelho, e cento e setenta companheiros, se deu princípio àquela tão incerta, como perigosa navegação. Concorreu na despedida, às praias de Belém grande número de nobreza, e povo. Ali foram infinitas as lágrimas dos que iam, e dos que ficavam, nascidas da saudade, e do temor, e dos vários, e tristes pensamentos, que naturalmente ocorriam em caso tão novo. Estremeceram-se os corações de uns, e outros, ao tempo que os marinheiros, despregando as velas, deram a sua costumada salva de Boa Viagem; os que ficavam em terra alongavam os olhos pelas ondas, em seguimento dos navegantes; estes, não os podiam apartar da amada Pátria, e uns, e outros estavam como atónitos, em profunda, e medrosa suspensão, até, que a distância separou as vistas, não assim os corações.

22/06/2019

S. JULIÃO, Mártir (23 de Junho)


São Julião, invicto Mártir, sacrificou a vida em defensa da Fé, sendo de dezoito anos, no de 270. Imperando Décio, na antiga Cidade de Flávio Brigada, Província dentre Douro e Minho. 

20/06/2019

Sto. INOCÊNCIO, Bispo e Confessor (21 de Junho)

Santo Inocêncio foi Bispo de Mérida, Metrópole da antiga Lusitânia, Varão de Candidíssimo espírito, como bem mostra o seu nome, e muito melhor o mostrou a sua incullpável vida. Passou neste dia [21 de Junho] à eterna, no an de 612. 

19/06/2019

PAULO CONCORDIENSE (20 de Junho)


Em Concórdia, Cidade da Antiga Lusitânia (hoje Beselga na Comarca de Torres novas) passou a melhor vida, o famoso Paulo Presbítero, chamado Concordiense, da pátria onde nascera. Foi Varão igualmente santo, e douto: o grande Padre São Jerónimo se correspondia com ele, e lhe dedicou a vida de S. Paulo, primeiro Ermitão, achando singular consonância, entre um,  e outro, nos nomes, e nas virtudes. Faleceu o nosso neste dia [20 de Junho], ano de 418. 

18/06/2019

O GRANDE PEDRO BARBOSA (19 de Junho)


O grande Pedro Barbosa, natural de Viana do Minho, famosíssimo Doutor em Leis, cuja Cadeira de Prima leu na Universidade de Coimbra muitos anos: foi Desembargador do Paço em tempo dos Reis Dom Sebastião, e Dom Henrique, e Chanceler mor do Reino: Felipe II o levou para Castela, e o fez Ministro do Conselho de Portugal naquela Côrte: compôs doutíssimos volumes sobre o Direito Civil: deles se lembra o Padre Teófilo Rainaldo nas suas Tábuas Cronológicas, como de insigne Jurisconsulto, e o foi dos maiores, que houve  na Cristandade, e lhe chamavam o segundo Papiniano. Faleceu em Lisboa neste dia [19 de Junho], ano de 1606. Jaz no Convento de S. Roque. 

17/06/2019

Fr. ANTÓNIO DA MADRE DE DEUS (18 de Junho)


Frei António da Madre de Deus, Religioso da Sagrada Ordem dos Eremitas de São Paulo, natural de Lisboa, Varão doutíssimo nas Divinas letras, famoso Prégador, e insigne Escriturário, e também excelente Jurista: Compôs três tomos com o título de Apis Libani; grandes no volume, maiores no espírito, porque são um rico tesouro de elegantes Conceitos, e de engenhosas agudezas. Morreu neste dia [18 de Junho], ano de 1696. 

16/06/2019

SÃO AVITO, Confessor (17 de Junho)

Santo Avito, Português, natural de Braga, ilustríssimo em sangue: foi mui douto nas línguas Latina, e Grega, e nas Sagradas Letras. Passou a Jerusalém, onde se achava, ao tempo da miraculosa Invenção do corpo do glorioso Protomártir Santo Estevão, cujo sucesso escreveu na língua Latina, e o participou às Igrejas da Cristandade. Teve com o Doutor Máximo São Jerónimo estreita correspondênia; a mesma com o Santo Paulo Osório, seu patrício. Sucedeu sua morte em Jerusalém neste dia [17 de Junho], pelos anos de 440.

15/06/2019

D. PEDRO MASCARENHAS (16 de Junho)


Dom Pedro Mascarenhas, um dos grandes heróis deste nobilíssimo apelido, foi filho de Fernão Mascarenhas, Capitão dos Cinetes, e General das Galés, Estribeiro mor delRei Dom João III. Serviu de menino à Rainha Dona Leonor mulher delRei Dom João II. Depois passou a África a empregar os brios de mancebo, na guerra contra os Mouros. ElRei Dom Manoel o fez, pouco depois, General das Galés, que então corriam a Costa, e guardavam o Estreito; nelas acompanhou a Senhora Infante Dona Brites na jornada de Saboia. Achou-se na conquista de Tunes com o Infante Dom Luiz. Foi por Embaixador delRei Dom João III ao Imperador Carlos V e fazendo jornada por França lhe mandou o seu Rei por um Gentil homem da sua câmara cinco mil dobras de ouro; e não as aceitando, lhe disse o Gentil homem que as levava: "Senhor, não me atrevo a aparecer com elas perante ElRei meu senhor?" E Dom Pedro lhe respondeu: "Pois, senhor, tomai-as para vós". Na função da embaixada se houve em Alemanha com tão prudentes atenções, que o Imperador se lhe afeiçoou por extremo, e lhe chegou a expressar, que seria muito do seu agrado, se quisesse ser Aio de seu filho, o Príncipe Dom Filipe; ao que o generoso Português respondeu estas memoráveis palavras: "Senhor, na minha terra não costumam mudar de amo os homens da minha qualidade". Por este tempo lhe chegou notícia, de que era nascido em Portugal, o Príncipe D. Manoel, filho delRei Dom João III e logo rompeu em grandes demonstrações de aplauso, e magnificência nunca vista. Deu um banquete ao imperador, com tantos realces de grandeza, e profusão, que até foi precioso o fogo, e o fumo da cozinha: porque toda a lenha, que nela ardeu,  e com que se guisaram os manjares, foi de canela fina de Ceilão. ElRei lhe encomendou segunda embaixada, que fez a Roma, com igual esplendor, e luzimento. Na volta, trouxe consigo a S. Francisco Xavier, e nele uma nova admiração do Ocaso, um novo Sol do Oriente. Não havia emprego grande, que ElRei não fiasse de Dom Pedro; fê-lo seu Estribeiro mór, e Mordomo mor do Príncipe Dom João seu filho; e parecendo-lhe, que o Estado da Índia necessitava de um homem tão grande, o nomeou Vice-Rei, e procurando escusar-se, por se achar com mais de setenta anos de idade, lhe disse o Infante Dom Luiz: "Desenganai-vos, Dom Pedro, que um de nós esta vez há de ir à Índia, ou vós, ou eu, se vós não fores irei eu". Depois de resistir quanto pôde, sujeitou-se como fiel vassalo às resoluções Reais. Quando se embarcou, ElRei o acompanhou até a praia, e o Infante Dom Luiz, e a maior parte da Fidalguia até bordo. Foi felicíssimo o seu governo, posto que breve; em seu tempo deu, e tirou Coroas, e conservou, entre os Príncipes da Ásia, o nome, e domínio Português, em suma reputação. Foi muito amante da Justiça, e se prezava de repartir os prémios com igualdade, sem atenção a respeitos particulares. Mandou fazer rol de todos os ofícios, e empregos,  que estavam vagos, e fez por edital, e lançar bando, que todos os que tinham servido acudissem com seus papeis para serem despachados, como fez logo, sem dar cargo, nem ofício a algum criado seu. Requerendo-lhe certo soldado (de mais valias, que valor) que o despachasse, por se achava com três anos de serviço, lhe respondeu: "Ando agora despachando os que tem vinte, e os que tem dezanove, como chegar aos de três, então me lembrareis de vós". Visitando as presos, foi trazido perante ele um homem com um grilhão nos pés: perguntou-lhe porque estava preso com tanto rigor, respondeu, que por dever a ElRei certa quanta de dinheiro; mas que os Ministros da fazenda Real lhe não queriam descontar outra maior, que ElRei  lhe devia a ele, e querem que eu pague a ElRei com ouro, pagando-me a mim com ferro. Inteirado o Vice-Rei, de que falava verdade, se voltou para o Veador da fazenda, dizendo: "Aquele grilhão, eu, e vós, é o que merecemos, pois somos oficiais delRei, e não queremos pagar as suas dívidas". E  logo mandou, que se ajustasse a conta do preso, descontando-lhe quanto ElRei lhe devia. Por este modo se portava em todos os negócios, sempre com grande prudência, e rectidão, e com igual discrição, e aviso. Faleceu em Goa neste dia [16 de Junho], ano de 1555 com os gloriosos epítetos de valeroso Cavaleiro, prudente Capitão, bizarro Embaixador, singular Aio, justo Vice-Rei, bom Cristão. Foram seus ossos trasladados para o Convento de S. Francisco da Vila de Alcácer do Sal, onde havia escolhido sepultura para si, e para os sucessores do Morgado da Palma, que ele instituiu, e por sua morte por a seu sobrinho, o famoso D. João Mascarenhas.

14/06/2019

ROUBO SACRÍLEGO DO SANTÍSSIMO SACRAMENTO EM COIMBRA (15 de Junho)

Igreja do Corpo de Deus, posteriormente Igreja N. Sra. da Vitória, Coimbra (Portugal)  
Na Sé de Coimbra, se fez neste dia [15 de Junho], ano de 1361 o sacrílego roubo do cofre, com cinco Partículas consagradas, que se enterraram em lugar indecente, donde foram tiradas, e levadas pelo Bispo D. Vasco. Clero, e cidade em soleníssima procissão, para o Sacrário da mesma Catedral, e em desagravo da Majestade  Divina, foi erecta, no mesmo lugar indecente, a Igreja do Corpo de Deus da mesma Cidade.


Sobre o assunto, ler artigo ASCENDENS: SACRILÉGIO DE COIMBRA (ano de 1362), etc. etc.... 

13/06/2019

É JURADA A CONCEIÇÃO DA SENHORA NA CIDADE DE BRAGA (14 de Junho)

Santuário de N. Sra. do Sameiro, Braga
Neste dia de 1637 foi jurada a Conceição da Virgem MARIA pelo Sínodo que se celebrava na Santa Sé da Cidade de Braga, que é a segunda Igreja, que se dedicou à mesma Senhora, ainda viva; sendo congregado, e presidido pelo seu Arcebispo Primaz, Dom Sebastião de Matos, na forma seguinte: Prometemos, e juramos todos os que neste Sínodo estamos congregados em nossos nomes, e de nossos Sucessores, de sempre termos, e guardarmos, e defender-mos, que a Virgem MARIA nossa Senhora foi concebida sem mácula de pecado original, na forma das Constituição, e Breves Apostólicos passados sobre esta matéria. O mesmo juramento se tinha também feito no Sínodo, que se celebrou no Bispado da Guarda no ano de 1634.

12/06/2019

SANTO ANTÓNIO, Confessor (13 de Junho)

Sto. António de Lisboa (fonte)
Neste dia [13 de Junho], ano de 1231 chegou em Pádua ao seu ocaso, o Sol nascido em Lisboa, abreviando no seu curso de trinta e seis anos, acções e maravilhas, que não cabem em muitos séculos. Na primeira idade, se criou debaixo da tutela, e à sombra da Mãe de Deus , e mereceu receber da celestial Princesa, como filho, amorosos favores, como aluno, altíssmas direcções. Fugindo das tempestades da vida secular, se acolheu ao porto da Religião,  e recebeu o hábito no Real Convento de São Vicente de Lisboa. Mas desejando apertar mais consigo, e apartar-se mais dos seus,  se transferiu para Santa Cruz de Coimbra, Conventos insignes, um, e outro, da Sagrada Congregação dos Cónegos Regulares de Santo Agostinho em Portugal; em um, e outro, lançou os profundos alicerces ao alto edifício de santidade, que depois havia de encher o mundo de exemplos, e de admirações. Passados alguns anos, entraram por Coimbra as sagradas relíquias dos cinco Mártires da Religião Seráfica, que em Marrocos haviam padecido, pouco antes, glorioso martírio. Ainda respiravam aquelas cinzas incêndios, e sendo corpos desanimados, influíram em Santo António (Fernando se chamava então) tais ardores, que mudando de nome, e de profissão, se passou à Sagrada Ordem de São Francisco. Fervorosas ânsias de Sacrificar a vida, em obséquio da Fé, o levavam a África, e uma perigosa tempestade, sobre uma perigosa doença, o fizeram arribar a Sicília; mas nem por isso deixou de merecer, quanto era da sua parte, a coroa de Mártir, fazendo-o Mártir no desejo, o ardentíssimo desejo do Martírio. Passou à Cidade de Assis, a ver o seu Santo Patriarca, e viu nele um novo, e claríssimo espelho de todas as virtudes. Revia-se também amoroso Pai, no já amado filho; porque divisava, e previa nele, por entre as sombras da humildade, preciosíssimos talentos de santidade, e sabedoria, aprendidas ambas em escola superior. Mandou-lhe que lesse Teologia, e foi o primeiro, que na sua Religião dictou aquela Rainha de todas as ciências, em grande glória sua, e também de Portugal; porque sendo tantas, e e tão esclarecidas, as estrelas, que resplandeceram em todos os tempos, no Céu daquela sapientíssima Religião, foi o nosso Português Santo António, o Sol, que precedeu, e presidiu a todas. Ao mesmo tempo começou a prégar, e começou a converter, e admirar o mundo. Era imponderável o trabalho, e fervor, com que se aplicava a servir, e a merecer. Estudava, e ao mesmo tempo compunha, dictava da Cadeira, prégava do Púlpito, assistia no Cofesssionário, acudia ao Coro, e às outras ocupações domésticas, e discorria de uns lugares a outros, em serviço da Fé, em obséquio  da Caridade. Esta foi, sem dúvida, a razão, porque logrou a grande prerrogativa, de assistir ao mesmo tempo, em lugares diversos, e distantes, como muitas vezes lhe sucedeu. Eram as suas obras muito do agrado do Senhor, e para que multiplicasse as obras, o multiplicava, e reproduzia o Senhor em muitas partes. Concorriam Cidades inteiras a ouvir os seus Sermões; ainda nos dias de trabalho, se fechavam as oficinas, como se fosse dia Santo: Não cabiam os ouvintes nas Igrejas, e apenas cabiam no campos:  passavam muitas vezes de trinta mil. Acompanhava a torrente das palavras, com outra de maravilhas. A sua voz era percebida de todo o Auditório, sendo, que pela multidão, ficavam muitos em tanta  distância, que não podia lá chegar naturalmente. Eram os ouvintes de Nações, e línguas diversas, e prégando o santo em uma só, todos o entendiam na sua. Por vezes, fez, que os brutos arguissem de mais brutos, a muitos racionais, já prostrando-se a adorar o Sacramento, já unindo-se a ouvir a palavra de Deus. Com os exemplos da sua vida, eram também sem número as conversões. Nos hereges achava maior resistência, como gente mais cheia de presunção. Mas a golpes de eficazes razões, solidamente fundadas na Escritura, os batia, e abatia de modo, que, ou se rendiam obedientes à verdade, ou se retiravam cheios de confusão; por esta causa foi chamado o Martelo dos hereges. Teve também suas contentas domésticas, e não menos perigosas; mas é virtude heroica zelar sobre a casa de Deus. Era Geral da Ordem Frei Elias, sucessor do Seráfico Patriarca, porém não do seu espírito: tentou relaxar em algumas coisas, o rigor primitivo da Santa Regra. Havia por aquele tempo (como sempre_ gravíssimos Varões na Religião dos Menores, mas não havia entre eles, quem saísse a campo em defensa da sua Religião. Tomou Santo António sobre si, esta grave empresa: o Geral era Elias no nome, ela o era no espírito; mas temperando os ardores do zelo, com os dictames da prudência, e da humildade, se ouve de maneira, que sem ofender as obrigações de súbdito, ficaram em seu vigor as leis. Prosseguia na cultura das almas, e não cessava de as encaminhar por todos os modos, ao fim da perfeição: Quando não prégava, escrevia, admirável igualmente, língua, e na pena. Era versadíssimo nas sagradas letras, tão estudioso delas, que sabia toda a Escritura de cór, e como Santo, enfim, por todos os títulos, de felicíssima memória. Foi o primeiro, que deu no utilíssim invento das concordâncias, e fez umas, que correm impressas de textos para diversos assuntos. Compôs Sermões de Santos, e de todas as Domingas, e outros muitos devotíssimos tratados, sobre diversas matérias. Foi, enfim, um Oráculo de celestial sabedoria, aprendida na escola da Oração. Ouvindo-o prégar o Papa Gregório IV  lhe chamou Tesouro das letras sagradas, e Arca de Testamento. Recebia cada hora, este terníssimo Português. favores também terníssimos do Céu. Baste, para exemplo, aquele caso singular, quando o mesmo Deus feito homem, em forma de Menino, veio colocar-se em seus braços, reclinar-se em seu peito. Se nos Anjos pudesse haver inveja, invejariam sem dúvida, tão grande felicidade. Nem eles sabem compreender a torrente de de´líias, e carícias, que bebeu em tão doces laços, em abraços tão suaves, aquele amoroso, e ditoso coração. Coroado de tão insignes merecimentos, recreado com tão celestiais soberanos favores, prevendo o dia da sua morte, e prevenido para ela com os Santos Sacramentos, entre docílissimas saudades, ardentes, e amorosas jaculatórias, passou da vida mortal à eterna, neste dia [13 de Junho] ano de 1231 tendo de idade trinta e seis, menos dois meses, e dois dias; dos quais viveu os primeiros quinze em casa de seus Pais; dois no Convento de São Vicente de Lisboa; oito, e alguns meses, em Santa Cruz de Coimbra: Dez, com mais sete meses, na Religião de São Francisco. Quiseram os Frades encobrir a sua morte, receando tumultos; mas os meninos da Cidade de Pádua guiados de impulso superior, saíram clamando pelas ruas, e dizendo, que era morto o Santo; como a tal o tratou, e venerou toda a Cidade, e foi levado em Procissão soleníssima com festas, e músicas alegres, à sepultura, que lhe deram em uma arca de pedra, que naquele dia foi descoberta (como preparada pelo Céu) com admiração universal; porque se achou ser obra dos Santos Mártires, a que a Igreja chama, os quatro Coroados; os quais foram insignes escultores, e por não quererem fazer estátuas de Ídolos, padeceram Martírio. Neste venerável, e estimável sobre, foi depositado o milagroso Cadáver. É Santo António um dos mais famosos, e milagrosos Santos da Igreja. Em toda a Cristandade, apenas se achará Templo, sem Capela sua própria, ou ao menos, sem imagem sua. Em Roma, lhe tem tanta devoção, que em seu dia, a maior parte dos moradores, indo ao Convento de Ara Caeli visitar a sua Imagem, e invocar a sua proteção, sobem de joelhos a escada do mesmo Convento, sendo esta de cento e vinte e oito degraus. Em toda Itália é chamado, por antonomásia, o Santo: outros acrescentam: O Santo dos milagres; e eu acrescentara: O milagre dos Santos: porque tantas acções tão sublimes, tantas virtudes tão heroicas, tão raras, e tão esquisitas maravilhas, sem dúvida o repõem em Classe eminente, em esfera superior.