19/07/2019

O Venerável GREGÓRIO LOPES (20 de Julho)

 O admirável, e o prodigioso servo de Deus Gregório Lopes, Português, natural da nobre Vila de Linhares, peregrino da sua Pátria na idade de dezasseis anos, e depois por trinta e três solitário habitador do novo mundo em um retiro de todo o comércio com ele: contemplativo altíssimo, e tão superior aos afectos da natureza, que no meio de intoleráveis dores, nunca se lhe ouviu um "ai". De espírito tão profundo, e recôndito, que o mesmo demónio não podia conjeturar suas operações. Tão perfeito, que por toda sua vida, nem disse palavra escusada, nem nas suas acções se lhe advertiu imperfeição alguma. De tão rara pureza de consciência, que comungava frequentemente, sem receber o Sacramento da Confissão, porque aquela o não acusava de haver cometido acto algum pecaminoso com advertência. De tão rara união com Deus, que por três anos contínuos, a cada respiração dizia interiormente: Fiat voluntas tua; e depois passou a acto contínuo de amor do mesmo Senhor, sem interrupção, ainda quando delineava mapas, por ser muito inclinado a Matemáticas. De gravidade tão admirável, que a todos infundia respeito. De atractivo tão singular, que até os Índios mais bárbaros os entranhavelmente o amavam. Tão ilustrado, que lhe infundiu Deus todas as ciências naturais, e sobrenaturais, com que expôs soberanamente o Apocalipse: sabia toda a Bíblia de memória penetrando os maiores segredos dela, com pasmo dos homens mais eruditos; enfim, um dos maiores prodígios da Divina Graça. Viveu, e morreu com verdadeira opinião de santidade, na solidão de Santa Fé, das léguas da Cidade de México, neste dia [20 de Julho], ano de 1596 com cinquenta e quatro de idade. 

17/07/2019

O Pe. ANTÓNIO VIEIRA (18 de Julho)


Neste dia [18 de Julho], pela uma hora depois da meia-noite, no ano de 1697 contando noventa de idade, faleceu na Bahia o Padre António Vieira, da Companhia de Jesus, Prégador dos Reis Dom João IV, Dom Afonso VI, Dom Pedro II e sem controvérsia Rei dos Prégadores. Foi Varão digno de memória imortal. Insignemente grande em ciências, e notícias. Assim resplandecia em todas, como se houvera sido Mestre em cada uma. Na arte concionatória, foi sem contradição o Juiz, ou (para que o digamos com mais alta comparação, e mais própria) o Fenix. Seguiu este felicíssimo engenho na estructura dos seus Sermões uma nova ideia, um novo método. Alguns o rastejaram antes: muitos o quiseram imitar depois, mas uns, e outros com aquela diferença, que vai da luz das Estrelas aos resplandores do Sol. Os maiores homens, os mais insignes lhe abaixam a cabeça, e com o dedo na boca lhe rendem a primazia. Se há algum, que diga, ou presuma o contrário, nem é insigne, nem é grande, nem é homem. Não negamos a eminência de muitos Oradores dos nossos tempos (posto, que a negue  a inveja, ou a ignorância) mas estes, tanto excederam aos mais, quanto mais se chegaram a beber das águas desta fonte, a participar dos raios desta luz.

Nos seus Sermões, assim tira os assuntos das entranhas do Evangelho, que vem nascendo dele, e delas, assim os define, os reparte, os veste; assim os funda, os prova, os confirma; assim os exorta, os ilustra, os realça; com tão subidos conceitos, com pensamentos tão novos, tão esquisitos, com reflexões tão agudas, e tão sólidas, com documentos tão altos, com erudição tão vasta, e tão selecta, com frase tão natural, e tão pura,  com tanto asseio sem artifício, tanta gala sem afectação, com tanta vivacidade de engenho, tanta profundidade de juízo, com tanto peso de razões, tão ajustado nas premissas, tão formal nas consequências, tão douto, tão elevado, tão elegante, tão sublime, que deixa absorta, e suspensa a mesma admiração, e transcendem todo o elogia.

Nos pontos mais dificultosos da Teologia especulativa, Moral, Dogmática, e Ascética, usa de termos tão claros, e tão próprios, de exemplos tão naturais, de comparações tão adequadas, e bem trazidas, que se deixa entender facilmente, ainda dos entendimentos mais rudes, ou menos cultivados. Pelo mesmo modo discorre em qualquer das outras ciências, quando chega a tratar delas. Até nas artes mais humildes, e nos empregos mais alheios da sua profissão, fala com tanta propriedade, e miudeza, como se os professara. Nos da guerra, como se fora soldado, nos do mar como se fora piloto, nos do campo, como se fora lavrador, e até nos do jogo (não se pode encarecer mais) como se fora taful.

Na inteligência, e exposição das Escrituras é um prodígio singular: assim ajusta os textos aos seus discursos, que parecem trazidos, ou achados com lume superior. Por onde os outros passaram sem advertência, ali descobre as dúvidas mais agudas, e mais selectas, e as resolve, e desata com tanta proporção ao seu intento, como se só para ele fora feito o texto, e o reparo. Nos ditames da política se remontou com superiores voos; o amor da Pátria, o crédito da nação o constrangeram por vezes a falar em público sobre as novidades do seu tempo, que foram as maiores, que em muitos séculos se viram em Portugal. As mesmas o obrigaram a exortar, e advertir, e, talvez, repreender ao povo, à Nobreza, e até às mesmas Majestades; o que fez com estilo excelso, e sublime, e com tanta valentia, como prudência. Disse as verdades sem temor, mas com tento: soube unir a liberdade com a madureza, a doutrina com a doçura. Nos Sermões panegíricos, abstraindo de exagerações vãs, e de comparações pueris, louva os Santos, engrandece os mistérios com discretísimas ideias, sólidas, bizarras, engenhosas, e a toda a luz admiráveis, e plausíveis. Nos Sermões Doutrinais é um fortíssimo propugnador das virtudes, expugnador dos vícios, valendo-se de argumentos, e consequência tão fortes, e tão suaves, que bastam a vencer, e convencer a obstinação mais cega, a cegueira mais obstinada. E, para que o siga de uma vez, com os seus sermões assim enriquece a memória, assim lisonjeia o entendimento, assim renda a vontade, assim se insinua ao coração, que justamente é, e merece ser tido por um dos maiores milagres do engenho, e agudeza, que já mais viu o Mundo.

Ainda assim houve naqueles tempo quem prégava melhor, que o Padre António Vieira; mas era o mesmo Padre em diferentes Sermões; em qualquer dos seus excedia aos outros Prégadores, em alguns se excedeu a si mesmo. As cinco Pedras de David são cinco riquíssimos Diamantes, com que se coroa no templo da fama o simulacro da agudeza. Os dois sermões da Profissão, e das Exéquias são duas colunas do mesmo templo, gravado nelas o antigo Non plus ultra. No Sermão do Evangelista se remontou como Águia. Aos quatros Juízos do Advento nada chega. O Sermão da Quinquagésima é o o Sermão dos Sermões, e assim outros. Mas que maior prova da excelência deles, que as estimações de todo o Orbe Católico! Foram elas tantas, e tais, que não sabemos, que alguém nos nossos tempo as lograsse iguais, nem semelhantes. Por maiores, que fosse o Templo em que prégava o Padre Vieira, já nele ao romper da manhã não havia quem pudesse romper com gente; concorria toda a Nobreza de um, e outro sexo, concorriam os sujeitos mais graves de todas as sagradas Religiões [ordens religiosas], concorria o mais selecto, e mais luzido do Povo. Ouviam-se as suas vozes com igual silêncio, e admiração de todos: até a mesma inveja emudecia. Na cabeça do Mundo logrou os maiores aplausos. Todos os Cardeais, Prelados, e homens insignes, que seguiam a Côrte Romana o ouviam, como a Oráculo da eloquência. A Sereníssima senhora Cristina Alexandra, Rainha de Suécia, o tratou com singularíssimas expressões de Real afecto, reputando por grande glória ouvir da sua Capela (como ouviu por muitas vezes) um tão afamado Orador; às Nações, e Províncias da Cristandade, aonde não chegou em pessoa, chegou a sua fama, e deu nelas um tão estrondoso brado, que todas procuravam com ambiciosa emulação os seus escritos, e os verteu cada uma no seu próprio idioma. No Português, temos as suas obras reduzidas hoje a quinze tomos. Deseja-se com universal expectação o Clavis Prophetarum. Que ele confessa fora o maior desvelo dos seus estudos. O que é argumento evidente de ser aquela obra um parto incomparavelmente prodigioso, uma joia de preço inestimável.

Este homem tão grande, tão insigne, tão venerado por suas letras, e sabedoria, ainda se fez, e foi maior homem pelo desengano, com que metendo debaixo dos pés as estimações (verdadeiramente vaidades) do Mundo, da Côrte se retirou dela, e dele para o Maranhão, trocando os Palácios, em que eram admitido pelas choças de colmo: a graça, e valia com os Reis, e primeiros Senhores de Portugal, pelo trato com homens despidos, ferozes, e quase brutos: o descanso, e delícias, que puderam lograr, se quisera, por infinitos trabalhos, e perigos: os cargos, e dignidades, que lhe foram oferecidas, por grandes perseguições, e desprezos, a que se sacrificou, e padeceu, sem outro fim, ou interesse mais que o de salvar almas daquela numerosa, e inculta gentilidade. Vários acidentes (que não são do nosso assunto) o trouxeram a Portugal, e o levaram a Roma, donde voltando outra vez a Portugal, se retirou finalmente par ao Brasil, fazendo, como novo Sol, um perfeito círculo tão luzido como dilatado.

16/07/2019

O Pe. Fr. JOÃO DA SILVEIRA, Carmelita (17 de Julho)

Resultado de imagem para ordem do carmoNeste mesmo dia [17 de Julho], em uma Quinta-feira, ano de 1687 com mais de noventa e seis de idade, morreu no Convento de nossa senhora do Carmo de Lisboa, o insigne Padre Fr. João da Silveira, ilustríssimo ornamento da Religião Carmelitana, da Nação Portuguesa, do Orbe religioso, e literário. Foi natural da mesma Cidade, filho de Fernão Lopes Lisboa, e de sua mulher Catarina Fernandes. Depois de ler muitos anos Teologia, escreveu, e imprimiu dez tomos; seis de Exposição dos quatro Evangelhos, dois sobre o Apocalipse; um dos Actos dos Apóstolos; outro de vários opúsculos. Todos são doutos, e tão estimados na Europa Católica, que em todas as suas principais oficinas tem sido impressos muitas vezes. Também se imprimiram dois Sermões seus, um de Exéquias do Príncipe Dom Teodósio, outro da Canonização de Santa Maria Madalena de Pazi. Deixou M. S. um tomo da Encarnação, outro de Leis, outro de Filosofia, e um Tratado da Imunidade Eclesiástica. Não vinha a Lisboa pessoa de especial nota, ou de dentro, ou de fora do Reino, que logo não fosse ao Carmo, ver a um homem tão sábio, e egrégio como o Padre Silveira. Não o foi menos no exercício das virtudes. Não ofendeu a da Castidade em toda a sua vida. Na humildade foi raro; não quis ser Prelado; só por obediência aos seus Padres Gerais aceitou ser Presidente de três Capítulos Provinciais; e no Geral, que em Roma se celebrou no ano de 1660 o condecoraram com os privilégios de Padre da Província, e fizeram Definidor perpétuo da Ordem. Na pobreza foi tão singular, que tendo mil cruzados de renda cada ano, que lhe deixou sua irmã a Baronesa Dona Beatriz da Silveira, de quem já falamos em outra parte [5 de Fevereiro]; e recebendo grandes productos dos seus livros, tudo empregou em obras Santas, e sagradas do seu Convento, e se tratava como verdadeiro pobre, não tendo outras alfaias mais, que uma Cruz de pau, uma banca, uma cama, e duas cadeiras velhas. Ainda assim alguns furtos lhe fizeram da sua cela, quais foram levarem-lhe algumas vezes (pessoas graves que o visitavam) o tinteiro, e as penas, com que escrevia, como joias preciosas, dignas de imortal memória. Na sua sepultura se lê o seguinte epitáfio:

Siste Lector.
Hic Jacet
Carmeli doctissimus Doctor, 
Sapiens, & humilis,
Pauper, sed magnanimus.
PATER SYLVEIRA.
Libris incubens, Deo impensius
Studuit, scripsit, composuit:
Nil habens Litteris preciosius
praeter virtutem.
Nobis exempla, Lisiae decorem,
Famam aeternitati relinquens, 
Sictus vixerat, mortuus est
In osculo Domini:
Ne discedas, quin dicas
Requiescat in Pace.
Obiit 17. Julii, Anno 1687.

15/07/2019

O VENERÁVEL ARCEBISPO D. Fr. BARTOLOMEU DOS MÁRTIRES (16 de Julho)

Dom Frei Bartolomeu dos Mártires, foi natural de Lisboa, Religioso da Sagrada Ordem dos Prégadores, e um dos mais excelentes Varões, que ela teve desde os seus primeiros fundamentos: foi insignemente Grande, assim na Compreensão das ciências, como no exercício das virtudes; apesar de extraordinárias diligências, que fez, por não sair do sossego da sua cela, o nomeou a Rainha Dona Catarina (Regente, então, do Reino) Arcebispo de Braga, e naquela excelsa Dignidade, deu tão ilustres provas de zelo, de vigilância, de beneficiência, e de amor, e caridade Pastoral, que renovou os heroicos exemplos, e nobilíssimas acções dos primitivos Padres da Igreja; contente com o preciso trato, e sustento para si, e para um curto número de Capelães, e criados, tudo o mais das suas rendas era dos pobres. Visitou por vezes o Arcebispado, não para tosquiar as suas ovelhas, mas para lhe dar o pasto espiritual da doutrina, e também o material, remediando com grossas esmolas, aos que achava necessitados: chegou a partes, onde nunca havia chegado outro algum Arcebispo, porque se dilatavam muito mais, que os longes das terras, os espaços da sua caridade. Gostava de prégar, e ensinar, e ministrar os Sacramentos aos pobrinhos do campo, humilde com os humildes; mas desses Prelados que Deus, pois não escolheu para fundamento da sua Igreja as altas qualidades, senão as humildades profundas. Foi ao Concílio Tridentino, e fez a jornada sem vãs ostentações, que só servem à vaidade, em detrimento da pobreza: onde havia Convento da sua Religião [Ordem Dominicana], nele ia pousar, com um companheiro do seu hábito, deixando a hostiária os poucos criados, que o acompanhavam, e sucederam-lhe alguns casos galantes, porque talvez dava com Prelados, que não gostavam de hóspedes, ou eram menos cuidadores do trato deles, donde nascia levar algumas más respostas, e piores ceias; mas essas mesmas desatenções, e desprezos à sua pessoa, era o seu prato mais regalado: se depois o conheciam, e lhe pediam perdão (como sucedeu muitas vezes) então os abraçava com terníssimas demonstrações de afecto, e instava, em que não havia de admitir singularidades, declarando com muitas veras, que só se alegrava, e dava por bem agasalhado, quando o tratavam como a qualquer Frade particular da sua Ordem. No Concílio foi logo conhecida, e admirada a sua pessoa, e ouvido como trombeta do Céu, porque facilmente se divisava nele um desejo ardentíssimo do bem comum da Igreja, sem atenção alguma a respeitos particulares: quando lançava o seu voto, todos o escutavam com profundo silêncio, e já sabiam, que havia de votar sem carne, e sangue. Tratando-se do modo, que era bem se reformassem as partes do corpo místico da Igreja, se ia passando  em claro o sagrado Colégio dos Cardeais, como se nenhuma relaxação pudesse subir tão alto; mas ele, com semblante inteiro, e severo, e com os olhos, e coração em Deus, e no bem comum da Cristandade, e na reputação do mesmo Concílio, disse: Os Reverendíssimos, e Ilustríssimos Cardeais (não tinham até então maior tratamento)  hão mister uma reverendíssima, e ilustríssima reforma. Assim votava geralmente em todas as matérias; passou a Roma, e recebeu grandes honras do Sumo Pontífice Pio IV e o mesmo Pontífice conferia com ele as dependências públicas, e gravíssimas, que ocorreram por aqueeles tempos: deu-lhe por muitas vezes a sua Mesa, e lhe fez outros singularíssimos favores. Voltando a Portugal, teve uma boa ocasião de mostrar o quanto zelava as preeminências da sua Primazia, porque com a Cruz Primacial arvorada atravessou por toda Hespanha, e pela mesma Cidade de Toledo, e Côrte de Madrid. Restituído à sua Igreja tratou de praticar nela as disposições do Concílio, e a esse fim convocou Sínodo, e nele estabeleceu santíssimas leis, e arrancou antigos abusos, emendando, e castigando vícios, mas sempre com mais suavidade, que rigor; erigiu o nobre Seminário de Braga, e um Colégio para a Religião da Companhia na mesma Cidade, e um Convento na Vila de Viana para a sua Religião, no qual se recolheu pouco depois, renunciando a Dignidade, cansado já de tantas fadigas, e querendo viver também para si algum tempo: ali, como se entrara a ser Noviço, começou a seguir a vida comum, e a exercitar-se nos empregos mais humildes da Ordem, quanto os achaques, e os anos lhe davam lugar: não perdeu o costume inveterado de dar esmolas, e vez houve, em que chegou a dar a própria cama, ficando dormindo por algum tempo nas tábuas: viveu neste seu Convento oito anos, e tantos teve de preparação próxima para a morte, sucedida  santíssimamente neste dia [16 de Julho], ano de 1590. Com setenta e seis de idade: Jaz no mesmo Convento de Viana com gerais aclamações de Santo. 

13/07/2019

SUPRIME-SE O CABIDO DA IGREJA CATEDRAL DE LISBOA, E SE ERIGE NOVA FORMA DE SERVIÇO NA MESMA IGREJA (14 de Julho)


O Santíssimo Padre Benedicto XIV por uma Bula, que principia: Ea, quae Providentiae nostre, &c dada em Roma neste dia [14 de Julho], ano de 1741 suprimiu o antigo Cabido, Dignidades, Canonicatos, Quartanarias, e Capelanias da antiga Igreja Catedral de Santa Maria de Lisboa, dando faculdade ao Cardeal Patriarca de Lisboa para erigir com conselho, e consentimento delRei, vinte e oito Cónegos, vinte Beneficiados, e dezoito Clérigos Beneficiados, tudo do Padroado Real; e de poder dispor o modo do serviço, e governo da dita Igreja, como parecesse ao mesmo Patriarca com o conselho delRei; e assim se executou pontualmente.