04/06/2018

O SANTO INFANTE D. FERNANDO (5 de Junho)

O Infante Dom Fernando, sétimo filho delRei Dom João I e da Rainha Dona Filipa, Mestre da Ordem Militar de Avis, foi um dos mais excelentes e virtuosos Príncipes que viu e admirou Portugal. Mostrou vivíssimo engenho para as artes e ciências, e particularmente sobressaiu na Matemática, e foi o primeiro inventor de se conhecerem de noite as horas pelo Norte. No exercício das virtudes, foi um singular prodígio da graça Divina; protector universal dos pobres, e miseráveis; grande venerador das Igrejas e coisas sagradas; muito devoto dos Santos; frequente na oração; contínuo e rigoroso nas penitências, e tão amante da castidade, que guardou a joia da pureza virginal. Os desejos de propagar a Fé, e expugnar o Paganismo, o levaram a Tangere [Tânger], onde não correspondeu o sucesso à  bondade da intenção. Ficou cativo, e em reféns, pela entrega da Cidade de Ceuta (como dizemos em outra parte.) Os votos dos maiores Ministros de Portugal, e de muitos Príncipe da Europa, concordaram em que não se devia entregar aquela Cidade aos Infiéis, e que se devia procurar por outros meios, a liberdade do Infante: Ele mesmo foi um dos que mais persuadiram esta resolução, antepondo o bem da Cristandade à sua maior conveniência temporal. Padeceu duríssimo cativeiro: porque os Mouros, sobre o nativo ódio, que sempre têm aos Cristãos, esperavam, por meio do mau tratamento, apressar a entrega de Ceuta, e quanto a entrega mais se dilatava, tanto era o tratamento mais cruel. Traziam-no pelas ruas públicas da Cidade de Fèz a ser ludibrio da mais vil plebe, igualmente bárbara, e inimiga, da qual era perseguido com injúrias e afrontas, e mal tratado com pedras e imundícias, com que lhe atiravam; faziam-no servir nos exercícios mais vis e de maior trabalho, como, cavar a terra, tratar dos cavalos, varrer as estrebarias, descalço e quase despido, sem outra cama mais que um couro estendido sobre o chão, sem outro sustento para manter a vida, mais que um pedaço de pão do mais grosseiro. Em tanta tribulação e miséria, ainda era maior a conformidade e alegria daquele gloriosíssimo Príncipe, em cujo coração, ardiam tão fervorosos desejos do martírio, que lhe fazia suaves e doces as penas e tormentos, que padecia: posto que tão activos na veemência, como largos na duração. Viveu no cativeiro, quase seis anos, e padeceu outros tantos de martírio; até que neste dia [5 de Junho], ano de 1443 ao pôr do Sol, recebidos os Sacramentos, sendo recreado com celestiais visões, trocou as misérias e calamidades desta vida, pelas felicidades e delícias da que não tem fim. Obrou Deus na sua morte, e depois dela, muitas maravilhas, e seu corpo (que depois foi tresladado ao Real Convento da Batalha) é venerado como de Santo, e dele, como tal, fazem memória, alguns Martirológios.

03/06/2018

S. DACIANO, Mártir (4 de Junho)

São Daciano, insigne poeta, Filósofo e Jurisconsulto: nasceu em Mérida, cabeça da Lusitânia naqueles tempos. Passou a viver a Roma, onde logrou singulares estimações: o famoso Marcial o louvou mais de uma vez nos seus Epigramas, e coloca  entre os Varões mais insignes daquela idade. O Santo Sumo Pontífice Evaristo [5.º Papa] o converteu à Fé, e por ela sacrificou constantemente a vida, e conseguiu a Coroa de martírio neste dia [4 de Junho] ano de 120.

02/06/2018

Sto. OVÍDIO, B. C. (3 de Junho)

Santo Ovídio, natural de Roma, da primeira nobreza daquela Cidade, convertido à Fé pelos sagrados Apóstolos São Pedro e São Paulo. Foi mandado a Espanha, e entrando em Portugal, foi pouco depois eleito prelado de Braga, o terceiro, naquela dignidade. Resplandeceram nele todas as virtudes, como em pontual imitador de tão soberanas ideias. É advogado dos ouvidos, em que tem feito maravilhas singulares. Jaz seu corpo na Catedral de Braga, com esta inscrição: Ossa Beati Ovidii Episcopi Bracharensis.

VIRGEM BENDITA SEM PAR


VIRGEN BENDITA SIN PAR
por Pedro de Escobar (Porto, 1465 - Évora, 1535).

Virgen bendita sin par
de quien toda virtud mana
vos sois digna de loar.

Vos sagrada emperadora
deshicisteis el engaño
y remediasteis el daño
de la gente pecadora.

De los ángeles Señora
vos querais tal gracia dar
que no podamos pecar
contra aquel que carne humana
de vos le plugo tomar.

De vos canta Salomón
toda y en toda hermosura
entre las espinas rosa
saliste en perfección.

A vos el alto varón
se humille en devoción
que sois bendita sin par
de quien toda virtud mana
vos sois digna de loar.

01/06/2018

NAUFRÁGIO DA NAU S. GONÇALO (2 de Junho)

Rechaçada de uma furiosa tempestade, e reduzida ao último perigo de submergir-se, foi demandar a terra na altura do cabo da Boa Esperança a nau São Gonçalo, em que iam 230 pessoas, e de que Capitão Fernão Lobo de Meneses. Acertaram a surgir numa baía, a que chamaram Formosa, por ter de boca 3 léguas e de circunferência 5; lançaram ali ferro; neste dia [2 de Junho], ano de 1630 ainda que a nau se achava aberta por muitas partes, entraram em consideração, se toda via, a poderiam consertar; e sendo preciso esgotar-lhe muita água que trazia dentro em si, desceu a este fim um homem à arca da bomba, que necessitava alimpar-se, e não voltou: desceu segundo e terceiro, e vendo, que não voltavam, lançaram outro atado numa corda, o qual achando mortos os companheiros, fez sinal para que o alassem, e alado velozmente, apareceu em cima quase expirando: era a causa o fertum veementíssimo da pimenta molhada, que de repente lhe sufocava a respiração. Saíram em terra 100 pessoas, ficando na nau 130, perseverando na dúvida de a poderem reparar; mas esta foi a sua total ruína, porque, sobrevindo um horrendo furacão, a levou a umas penhas, onde se fez em pedaços, e quantos nela estavam. qual seria o palmo, e a dor dos que ficaram naquela praia, mais é para considerar-se que dizer-se. Dispostos, porém, a se valerem de todos os meios que podia servir ao seu remédio, trataram de recolher as coisas da nau, que o mar lhe arrojava; e com outras, que antecedentemente havia posto em salvo, e com as que lhe oferecia a terra, por extremo fértil naquele sítio, começaram a passar com alguma comodidade, e a fabricar duas pequenas embarcações, em que outra vez se entregassem ao arbítrio do mar: semearam sementes várias, para lhe lograrem os frutos, e os lograram em grande abundância: assim o peixe que colhiam com muita facilidade: também não lhes faltavam vacas e carneiros, que a troco de ferro, lhes davam os Cafres: falavam estes, não com vozes inteiras, senão com um certo modo de estalos; a sua maior fala é o excremento dos bois, de que se barram: observou-se entre outras particularidades, que na manhã de São João apareceram com coroas de várias ervas. É o país muito sadio, sem pedra alguma, levantado e estendido em montes e vales, e há neles densíssimos arvoredos e muita diversidade de plantas e frutas de excelente sabor e cheiro suavíssimo, há todo género de aves e brutos terrestres e marinhos que conhecemos e de outros não conhecidos. Prosseguiam os Portugueses (suprindo as indústrias a falta de muitos materiais) na fábrica das duas embarcações e finalmente as puseram no mar, divididos, porém, na intenção, porque uns queriam voltar à Índia, e outros prosseguir a jornada à Portugal: os primeiros conseguiram o intento: os segundos, sobre várias calamidades, vieram a perder-se na barra de Lisboa.