03/05/2018

ANNO HISTÓRICO - Licenças do Santo Ofício


LICENÇAS
Do
SANTO OFÍCIO


Aprovação do M. R. Pe. Mestre Fr. Manuel Guilherme, da Sagrada Ordem dos Pregadores, Lente de Teologia, Qualificador do Santo Ofício, Examinador Sinodal, do Padroado Real, e das três Ordens Militares, etc.

Eminentíssimo Senhor

Obedecendo a Vossa Eminência, li o primeiro Tomo da obra intitulada: Anno Histórico, que compôs o Padre Mestre Francisco de Santa Maria, Cónego da Sagrada Congregação do Evangelista, Qualificador do Santo Ofício, e Cronista da sua Religião [ordem religiosa]. No tal livro não considero coisa contra a Fé, ou bons costumes; muito sim que admirar, invejar, e agradecer, nas deleitosas notícias, que nos recopilou, no belíssimo, puro, e desafectado estilo, com que as propõe, e sobre tudo na prudente indiferença, com que fala nas matérias questionadas. Por não dizer muito, recopilo quanto quisera dizer, que me aprece que foi força de especial Providência empreender este doutro Mestre semelhante método de escrever, para que de feliz Cronista da sua Religião, o fosse de todas as Religiões, e de toda a Monarquia Portuguesa. S. Domingos de Lisboa 24 de Março de 1713.
Fr. Manuel Guilherme


Aprovação do M. R. Pe. Mestre Fr. José de Sousa, Provincial da Sagrada Ordem do Monte Carmelo, Lente de Filosofia, e Teologia, Qualificador do Santo Ofício, etc.

Eminentíssimo Senhor

Por mandado de V. Eminência revi o livro intitulado Anno Histórico, Diário Portuguez, que compôs o Rev. Pe. Mestre Francisco de Santa Maria, Geral da Sagrada Congregação do Evangelista, e Cronista da sua Religião, e logo que li o nome do Autor, o considerei digno das aprovações, com que saíram à luz os mais, que o seu segundo engelho produziu; porque não podia ser parto pequeno o de um talento tão notoriamente crescido, como igual nas suas obras, e de quem podemos dizer, o que da famosa Roma escreveu Cassiodoro: tot annis continuis simul splendet cariate virtutis, et quamnis rara sit gloria, non agnoseitur, intam longo stemmate, variata; seculis producit nobilis vena primários; nescit inde aliquid nasci medíocre.
É o tal livro deleitável nas notícias, que refere com sinceridade, e sem afectação, recompilando as que com grande trabalho se podem desentranhar de muitos volumes, e as que talvez jaziam sepultadas no esquecimento. É glorioso na sua matéria sem nota de vulgaridades, pois oferece aos olhos do mundo uma breve, e nobilíssima perspetiva de seus Heróis, de suas proezas, de suas maravilhas; senão para o exemplo, que quase inimitáveis, fim para admiração por quase inacessíveis. É elevado sem jactância, pelas altíssimas reflexões, que com preciosíssimas pedras, nos descobre engastadas no finíssimo ouro de suas notícias, que podem ser recreação para os doutos, doutrina para os devotos, documentos para os políticos. É finalmente o livro, em tudo, legítimo filho, e será glória imortal do venturoso engenho que o produziu, por que em cada dia, dos que conta, dará à posteridade quotidianas notícias da sua excelência. Nada tem, que encontre a nossa Fé, ou bons costumes, e assim o julgo digno de imprimir-se. Carmo de Lisboa a 3 de Abril de 1713.
Fr. José de Sousa

Pode reimprimir-se o primeiro tomo do Anno Histórico, composto pelo Padre Mestre Francisco de Santa Maria, com o acrescentamento das notícias que se lhe juntaram, e depois de impresso tornará conferido para se dar licença que corra, sem a qual não correrá. Lisboa 23, de Outubro de 1742.
Fr. R. de Lencastre; Teixeira; Silva; Soares; Abreu; Amaral.

ANNO HISTÓRICO - Do Autor ao Rei


SENHOR

O Ano Histórico, e Diário Português, que em outro tempo teve a fortuna de merecer a Real protecção de V. Majestade, torna hoje a presença de V. Majestade mais amplo para que V. Majestade lhe continue a mesma mercê, que pela matéria de que trata se lhe deve de justiça, por ser um Compêndio dos sucessos notáveis dos Reinos, e conquistas de V. Majestade. O Padre Francisco de Sta. Maria, que delineou esta obra, e diz que pôs materiais para ela, por lhe faltar a vida, não pôde aperfeiçoá-la, nem oferecê-la a V. Majestade, como determinava. Eu com o desejo de que não perecesse este precioso Tesouro de notícias, e que obra tão útil aparecesse em público, tomei o trabalho de ordená-la, e de suprir algumas faltas. E vendo, que estes escritos não são desiguais aos outros do mesmo Padre, que todos mereceram a Régia protecção, para de algum modo satisfazer ao afecto, com que me devo lembrar do Autor da obra, aumentando-lhe ele a merecida fama, e à minha sagrada Congregação este crédito, não duvidei publicá-la a primeira vez: e como naquele tempo foi bem recebida, espero que agora tenha a mesma fortuna por aparecer mais cheia de notícias, e porque também sabe defendida com o soberano escudo do Real Nome de V. Majestade; em cuja benignidade, e generoso ânimo confio, que assim como no dilatado Hemisfério da sua vasta Monarquia com as Majestosas luzes do seu Régio esplendor faz felizes os dias, e com os seus benévolos influxos faz prósperos os anos, fará também, que este Diário se ilustre com algum reflexo de tanta luz, e o Ano Histórico goze a felicidade de tão alto influxo, para que sem receio algum apareça no Orbe literário; e nele se publique um novo testemunho das gloriosas acções dos Reais Progenitores de V. Majestade, e das suas grandes virtudes, e se conheça com admiração, que V. Majestade imitando tão altos exemplos soube exceder a todos, e tem constituído o Mundo em tal obrigação, que todos, quantos são capazes de rogar ao Altíssimo Deus, oram incessantemente pela vida, e saúde de V. Majestade, a qual o mesmo Senhor conserve a V. Majestade por tão dilatados anos como seus Vassalos desejam, e hão mister.
Lourenço Justiniano da Anunciação. 

01/05/2018

SANTA MAFALDA (2 de Maio)

Santa Mafalda, Virgem, Infante de Portugal, filha dos Reis D. Sancho I e D. Dulce: casou com ElRei Dom Henrique I de Castela: Não se chegou a confirmar o matrimónio, por causa da inesperada morte do mesmo Rei, que andando jogando à péla com seus criados, lhe caiu na cabeça uma telha, que lhe tirou a vida em breve espaço. Não chegava ainda a quatorze o malogrado Príncipe, e havia pouco mais de dois meses, que sucedera na Coroa: assim desaparecem do Mundo as suas grandezas, e vaidades. Voltou a Rainha para Portugal, retirou-se ao mosteiro de Arouca, onde vestiu o hábito de Cister, e com ele os de todas as virtudes, em que foi insigne; resplandeceu em milagres, foi seu glorioso trânsito neste dia [2 de Maio] de 1252. Jaz no mesmo Mosteiro, e séculos depois de sua morte foi achado seu corpo livre de toda a corrupção; a Sé Apostólica no ano de 1290 lhe aprovou os Cultos, com que sempre foi venerada por Santa, e ao presente se trata da sua Beatificação.

MARAVILHOSA APARIÇÃO DA CRUZ SACROSSANTA (2 de Maio)


Pelos anos de 1512 navegava o grande Afonso de Albuquerque com poderosa armada na volta daquele mar, a que a cor vermelha deu o nome, e ao entrar as portas do Estreito, neste dia, quando já começava a entrar a noite: eis que de repente se abre, ou imprime no Céu uma formosa Cruz de incomparável luzimento, e resplendor. Pasmaram os Portugueses à vista de um prodígio tão raro, e com singular alvoroço, e alegria, profundamente prostrados e rendidos, adoraram o glorioso sinal da nossa redenção, e o saudaram com salvas repetidas de todas as bocas de fogo, a cujo som marcial acompanhava o harmonioso das trombetas, e charamelas, e de outros instrumentos músicos. Durou toda a noite aquela Visão Celestial, e quase todo o dia seguinte: Representava ser a Cruz como de uma braça de altura, os braços, à proporção, uma nuvem branca a foi ocultando pouco a pouco aos olhos, deixando-a, porém, impressa nos corações. Não é alheio da piedade Católica conjecturarmos, que quis o Céu mostrar com este prodígio, que pelas armas, e conquistas daquele famoso Capitão, e de seus ilustres Sucessores seria conhecida, e venerada em todo o Oriente a Sacrossanta Cruz.

SÃO SECUNDO, Bispo e Mártir (2 de Maio)

Em Ávila, Cidade da antiga Lusitânia: padeceu martírio neste dia São Secundo [Segundo], Bispo  da mesma Cidade, e um dos primeiros discípulos de Santiago; era de cem anos de idade quando foi martirizado,  e havia gastado sessenta e quatro em serviço da Igreja, em obséquio da Fé.